sábado, 17 de junho de 2017

Panorama da falsa república

Logo depois da "abolição" da escravidão, Monteiro Lobato apresentou ao senado brasileiro, recém republicano, um projeto de alfabetização das vítimas escravizadas por tanto tempo, numa forma de resgate desse crime social. E ouviu, na lata, algo como "ô, Lobato, tá maluco? Se alfabetizar essa negrada, quem é que vai pegar no cabo da enxada?" O projeto foi desprezado e a escravidão, desinstitucionalizada, permanece em essência até hoje.

Em 1954, Getúlio Vargas estava cercado, difamado pela mídia, ameaçado de golpe, o "manifesto dos coronéis", afinado com os interesses econômicos das elites estrangeiras e nacionais, ameaçava a derrubada inconstitucional do governo. Ele havia cometido várias "heresias" para essas elites - ensino público gratuito e obrigatório para todos os brasileiros (até então o analfabetismo grassava entre os mais pobres), atendido as já velhas reivindicações trabalhistas de oito horas de jornada de trabalho, férias remuneradas, licença maternidade e outros, revoltando os patrões e, heresia das heresias, mandado investigar a tal "dívida externa" que, reveladas as falcatruas, caiu pra 40% do seu total. Independente da sua índole centralista e tirânica, Getúlio catalizou o ódio das elites estrangeiras e sua subalternidade brasileira e, pra evitar o golpe, cometeu um suicídio político que acuou os golpistas com o levante revoltado das massas populares que o adoravam.

Em 61, Paulo Freire, durante o governo João Goulart, foi convidado pra fazer um programa piloto de alfabetização de adultos, no interior de Sergipe. Cinquenta lavradores analfabetos foram alfabetizados em seis meses, a ponto de lerem em voz alta. A partir daí ele foi chamado para o ministério da educação, pra realizar o mesmo programa a nível nacional, com a finalidade de extinguir o analfabetismo no território nacional. Heresia recebida com ódio pelas elites, somada a outras que levantavam a histeria dos parasitas podres de ricos, como o incentivo à formação de associações de trabalhadores e sua organização na defesa contra os abusos patronais, a lei que limitava a remessa de lucros para o exterior por empresas estrangeiras instaladas no país e, heresia das heresias, decretou a reforma agrária, desapropriando dez quilômetros de cada lado de rodovias e ferrovias federais pro assentamento de pequenos agricultores familiares, facilitando o escoamento da produção, ligando o produtor, que ganharia mais, ao consumidor, que pagaria menos, eliminando as figuras dos atravessadores que encareciam os alimentos. Os mesmos coronéis que ameaçaram Getúlio, então generais, deram o golpe planejado, conspirado e articulado na embaixada dos Estados Unidos pelo então embaixador Lindon Gordon, que fez a quarta frota estadunidense sair carregada de armamentos e soldados pra iniciar uma guerra no Brasil como a do Vietnam, contando com as ações das elites locais, sempre traidoras do seu país e desprezadoras do seu próprio povo. Jango, sabedor dessas ações e intenções, não reagiu ao golpe, "pra evitar o derramamento de sangue de milhões, numa guerra fratricida", como ele mesmo disse. Sozinho, rejeitado pela arrogância da esquerda - como latifundiário e "lacaio" do capital, incapaz das mudanças sociais que só ela seria capaz - não encontrou apoio e seu governo foi derrubado, como disse Darcy Ribeiro, "não pelos seu erros, mas pelas suas virtudes".

Os militares, instalados no poder governamental, cumpriram a agenda programada. Destruíram a educação pública, incentivando a privada, perseguiram e destruíram sindicatos, associações e organizações populares, varreram das universidades todos os professores que tinham alguma preocupação social, com as injustiças históricas, com a miséria, a pobreza, a exploração, a ignorância e a desinformação, com a formação verdadeira de um povo mais evoluído em suas percepções e relações sociais. E pra ocupar os vastos espaços vazios, a Fundação Ford, de conhecido banqueiro estadunidense, se instalou em território nacional na "boa" intenção de formar professores universitários. Foi daí que começou a se formar a mentalidade empresarial que hoje submete o ensino acadêmico, a desumanização dos cursos, a maldade explícita que favorece os favorecidos e sacrifica as multidões historicamente sacrificadas. Ao mesmo tempo se desenvolvia o império midiático, com a Time-Life equipando a Globo golpista desde sempre, destinado a formar mentalidades, valores, comportamentos, desejos, objetivos de vida, relações sociais. E determinar "inimigos", comunistas na época, "terroristas" atualmente, sempre inimigos pra justificar os crimes contra as populações.

(https://www.youtube.com/watch?v=SaU6pIBv9f4https://www.youtube.com/watch?v=AVCoVVpVMTo)

É demonstrativo perceber que, mesmo numa casa pobre onde se encontra dificuldade até pra comer, se encontra uma televisão, com toda sua psicologia do inconsciente, programando mentalidades. É a estratégia do controle mental, direcionado a cada classe social com seu linguajar próprio, especialidade da mídia que as esquerdas nunca tiveram. A mídia inimiga fala a língua do público, em sua sedução criminosa baseada em mentiras, distorções e induções.

Quando os militares começaram a apresentar nacionalismos "incômodos" - a iniciativa de povoamento da amazônia, o reconhecimento da independência de Angola, mesmo levada por uma guerrilha socialista, o investimento no desenvolvimento de tecnologias nacionais,... - , começou-se a armar a "redemocratização", na verdade a remontagem da farsa da falsa democracia de sempre, com as instituições todas sob controle, infiltradas e dominadas pelos poderes financeiro-econômicos anti-populares. Tudo corria dentro do previsto, inclusive quando foi eleito o partido dos trabalhadores, devidamente "esterilizado" da influência popular e lavado das suas correntes mais coerentes com o programa do partido, para conter os movimentos populares que, redivivos, estavam em efervescência. Como planejado, esses movimentos se acalmaram e acomodaram, na ilusão de que "chegamos ao poder", sem considerar que os governos, há muito, não são o poder, mas sim manipulados pelo verdadeiro poder, o do punhado de parasitas sociais podres de ricos internacionais e nacionais. Mas os efeitos colaterais - pobres nas universidades, ascensão de parte da pobreza à capacidade de consumo de classes médias, menos miséria e desabrigo, adesão ao princípio de integração latinoamericana, informações escapando do controle midiático,... - levaram à derrubada desse partido, descaradamente de forma ilegal, com o judiciário elitista dando nó e desprezando leis com malabarismos jurídicos incompreensíveis ao cidadão comum confundido com as campanhas de ódio e difamação pela mídia privada.

Agora estamos vendo a extensão do programa de subalternização acelerada da totalidade institucional, e o povo se ferrando sem entender o que acontece, ignorantizado, desinformado, inferiorizado e enganado. A coisa toda é muito simples e fácil de entender quando se olha a situação de degradação social em que nos encontramos.Fecham-se as portas do conhecimento pras classes "inferiores", exterminam-se programas de inclusão social, ataca-se o ensino público mais uma vez, eliminam-se vagas nas escolas, ao mesmo tempo em que se constróem presídios que se pretende privatizar pra gerar lucros com os milhões de presos que essas atitudes vão criar. O futuro se apresenta escuro. Mas é na escuridão que se percebe o valor da luz. O sofrimento programado está a caminho, para além do sofrimento cotidiano das multidões. Na minha opinião, isso não vai ficar assim. Questão de tempo pra assimilação da realidade, no seu cotidiano.

Estamos trabalhando, os humanos, contra a desumanidade dos vampiros sociais que, cegos em sua arrogância, não sabem com quem estão tratando. As periferias estão, muito pouco a pouco, se ligando e tomando suas atitudes, de forma embrionária e despercebida. São os debaixo, os formadores inconscientes do alicerce da sociedade, quem vai impor as mudanças necessárias à harmonização social. Em seu tempo, que leva gerações, o que desespera os apressados condicionados ao sentimento de superioridade que desejam "conduzir as massas", na permanente pretensão dos declarados "revolucionários", que temem as favelas e não entendem nada do povo de verdade, nem falam uma língua que se entenda no chão da coletividade.

Quando se enxerga o panorama histórico, não há "absurdo" ou "retrocesso", mas a continuidade do programa estabelecido pelos inimigos de sociedades justas, pelos exploradores e mantenedores fervorosos da ignorância, da miséria, da desinformação que permitem a exploração desenfreada da população e dos recursos nacionais, as poucas dinastias de podres de ricos, verdadeiros demônios da humanidade. É preciso enxergar a realidade antes de resolver como agir, como participar da maneira que se quer, e não da forma programada pra ser ineficaz, impotente e cênica.

Quem pretende mudar o mundo está induzido pelos condicionamentos do sistema social escravista, inoculado de sentimentos falsos de superioridade sobre o povo roubado em seus direitos fundamentais. É preciso quebrar esses pedestais de vidro, artificiais e segregadores, criadores de distâncias que impedem a união solidária do saber da academia com a sabedoria das vivências sabotadas, que tem origem no sofrimento e na superação de dificuldades que nenhuma outra classe tem.



sábado, 10 de junho de 2017

Ravi, 29 anos.

Num dia com os números de hoje, em 1988, fomos de Prudente de Morais, cidade com três mil habitantes na sua área urbana, norte de Minas, pra Sete Lagoas, no fusca do prefeito de Prudente, por um motorista da prefeitura - a ambulância estava noutra missão -, onde havia uma maternidade. Às oito em ponto da noite, nascia Ravi, aos oito meses de gestação, de bunda. Moramos em Prudente durante quatro anos e depois fomos pra Visconde de Mauá, quando passei a morar só com meus filhos. De lá pra cá, tanta água passou debaixo desta ponte...

Hoje eu lembro da história. Uma história de muitas histórias. E ele é um homem vivendo.

sábado, 3 de junho de 2017

Investimento em escolas decentes, não em presídios.

Duvido que houvesse tanta oferta de crianças, adolescentes e jovens pro crime se as escolas fossem boas, se o investimento em educação fosse prioridade, como no tempo dos CIEPs. As crianças faziam questão de ir pra escola, exigiam dos pais mais relapsos. Havia café da manhã, almoço, lanches e janta, banho e escovar os dentes antes de entregar aos responsáveis, no fim do dia. Além de aulas tinha música, teatro, esportes, artes, havia interesse na formação integral e os resultados eram visíveis. A criminalidade nunca foi tão baixa, reduzida às bocas de fumo localizadas, assaltos eram raros, os índices eram muito mais baixos. A fábrica de escolas construída na época permitia a montagem em concreto armado de uma escola em um mês ou pouco mais, pra quinhentas, mil, mil e quinhentas crianças, conforme a necessidade local.

Escolas assim, interessadas na formação do ser humano como um todo, formam um povo mais instruído, mais esclarecido, mais capaz de pensar por si, mais difícil de se conduzir com mentiras, promessas e sorrisos. Daí a sabotagem do ensino público, na criação de ignorância, daí o enquadramento do ensino privado e do acadêmico em valores empresariais, apresentando o mundo como uma arena competitiva, um campo de batalha onde se deve vencer, e não como uma coletividade que tem, ou deve ter como objetivo a harmonia, a paz social, a inclusão e o cuidado de todos para com todos. 

Isso deve parecer impossível, nas determinações dos poderes sociais, os econômicos - exercidos sobre o aparato estatal e sobre as mentes formadas, induzidas e controladas com valores, comportamentos, objetivos de vida, desejos programados, visão de mundo distorcida. Acreditamos num monte de mentiras e, no fim da vida, temos a sensação de ter vivido em vão. Enxergar a realidade implantada dentro de si é o primeiro passo pra ver e pensar além do condicionado. E é fundamental na mudança de valores, de comportamentos, muitas vezes de coletividades - e muda o mundo, a vida, os gostos, os sentimentos em viver.

Me parece constrangedoramente óbvio que se o Estado investisse na sua população o que é de direito constitucional, os artigos básicos dos direitos humanos, a criminalidade cairia verticalmente. Como é também constrangedoramente óbvio que se vejo esse mesmo Estado fechar turnos e escolas, reduzir espaços e superlotar salas, desfazer programas que abriam portas de estudos a pessoas da parcela enorme sem condições de pagar, enquanto investe na construção de presídios, vejo as intenções que movem essas atitudes. Percebendo o processo de privatização do sistema carcerário, a fecha o quadro. Quem pretende diminuir a criminalidade não constrói presídios, investe em escolas, no ensino, na população. Prisões são escolas de crimes e se relacionam intimamente com a sociedade, todo o tempo, profundamente. Dorme quem não vê. A criminalidade se entranha em todos os níveis da sociedade, com a mídia como seu porta-voz, condutora da mentalidade, distorcedora da realidade, controladora das informações, malabaristas de verdades fabricadas. 

Refugiados do Desenvolvimento - filme



Uma sociedade comandada pelos interesses de poucos bilionários, com apoio dos milionários locais, sempre às custas das populações, de exploração, expulsão, criminalização de resistências, mortes e perseguições. Uma sociedade criminosa, um Estado seqüestrado pelas forças econômicas que clamam por desenvolvimento econômico - sem eliminar a miséria, a pobreza, a ignorância e a desinformação das multidões -, que louvam o desenvolvimento tecnológico - devidamente patenteado, negado à maioria e usufruído por minorias privilegiadas. Uma estrutura social baseada na competição, no confronto, na disputa, na busca frenética de lucro, consumo e propriedade, nas mentalidades artificialmente criadas em laboratórios de pensamento e implantadas pela mídia - com o apoio do modelo distorcido e tendencioso imposto ao sistema de educação, que marginaliza professores humanistas e vocacionados, que influencia a própria formação destes de acordo com interesses empresariais. Um modelo social de causar vergonha e revolta a qualquer espírito desejoso de harmonia social e minimamente consciente do que acontece na realidade, naturalmente inconformado com as gritantes injustiças e perversidades naturalizadas e costumeiras no cotidiano coletivo.

Uma sociedade criadora de "lixo humano", perpetuadora de "escórias", criminalizadora das suas próprias vítimas, contadas às centenas de milhões, bilhões em escala planetária.

Este filme mostra um pequeno pedaço, uma amostra de conseqüências humanas de uma estrutura social "naturalmente" desumana.

https://vimeo.com/160568538

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O fazendeiro de Linhares e o massacre de Pau Darco


Mais um massacre, mais uma história na barbárie rural que sempre houve, desde a chegada dos europeus. Eu estava em viagem, a vida tomada, quando soube do que aconteceu em Pau Darco, no Pará, um dos estados que conta mais mortos entre camponeses e indígenas, sempre em nome de interesses econômicos, madeira, criação de gado, monoculturas, a grana sempre valendo mais que a vida, característica do modelo de sociedade em que vivemos, ainda com muito pra evoluir. A harmonia social tem custado muitas e muitas vidas, sobretudo com a invasão e o domínio europeus em todos os continentes, impondo com armas uma civilização que nunca foi chamada pelos povos.

Lembro de uma vez, em Linhares, já com a mãe dos meus filhos mas ainda sem filho nenhum, passávamos a caminho da Bahia e paramos num puteiro pra dormir. Já sabíamos que nessas casas encontrávamos sempre uma boa solidariedade, vendíamos nossas pulseirinhas ainda toscas, arrumávamos o que comer barato ou mesmo de graça e dormíamos da mesma forma. Entramos, vendemos, conversamos, comemos e bebemos, quando chegou um fazendeiro conhecido, freqüentador, falando alto e centralizando as atenções. As meninas o tratavam com toda deferência - esse aí gasta muito quando vem - e ele parecia em casa. Nos olhou com curiosidade - éramos de fora e estávamos de passagem - e puxou conversa. Logo o papo corria solto e ele demonstrou uma grande simpatia por nós. Chamou pra jantar e nos levou a um restaurante chique, do outro lado da cidade. Coisa rara, fomos comer comida cara. Entre piadas e relatos - que eu ouvia atento - ele mencionou uns "vagabundos" que tinham "invadido" uma área esquecida e distante das suas terras, tão distante que quando ele ficou sabendo já estavam roçando e fazendo hortas. Um funcionário foi quem trouxe a notícia e ele resolveu o assunto a bala, como é características dos fazendeiros ricos, pelo que pude ver nos territórios onde andei. Era um cara grande, peludo, meio ruivo, e parecia ter gostado muito de nós. Falava alto e contava histórias, eu estava na época das pesquisas antropológicas de rua, a partir de um ponto de vista que nunca vivera, o de quem não tem nada. Não julgava, apenas ouvia e guardava minha opinião ainda em formação, sem conclusões definitivas.

Numa certa altura do jantar, ele viu um camburão da polícia local passando, acenou gritando e a viatura parou. Ele saiu da mesa e foi até eles, mandou os soldados descerem - pra meu espanto, desceram todos - e me chamou, "vem cá, Eduardo, agora cê vai dirigir camburão". Obviamente eu me recusei, na repulsa natural de quem se via hostilizado por aquela instituição cotidianamente, olhado com desconfiança, tratado com agressividade e tomando geral com freqüência. Ele insistiu, diante dos olhares contrafeitos dos policiais, que me viram cabeludo, de barba rala, cara de hippie, típico "inimigo", embora pacífico e desarmado. Pro alívio deles, mantive o pé dizendo, "aí eu só entro contra a vontade, e é lá atrás". Mas fiquei intrigado com a intimidade, com o poder que um civil tinha sobre os militares. Era o primeiro esboço da promiscuidade entre os poderes econômico e público. Ao longo do tempo, pude "apreciar" esse conluio, essa cumplicidade, muitas e muitas vezes.

A brutalidade do cara, embora a simpatia por nós, já estava me dando uma certa repulsa pessoal, a agressividade era evidente mesmo no afeto demonstrado por nós. Um afeto que eu intuía muito próximo de se transformar em raiva, por qualquer motivo que o desagradasse. Ele nos deixou de volta na casa das meninas, mandando cuidar bem da gente e prometendo voltar no dia seguinte, pra nos levar a uma das suas fazendas. De manhã cedo, tratamos de pegar a estrada e partir antes que ele chegasse.

Lembrei desse encontro, depois do massacre no Pará, na percepção de que os donos de terras sempre contaram com violência armada, com jagunços, "seguranças", sempre expulsando os camponeses ou os povos originários, seja das "suas" terras (nem sempre legais), seja de terras cobiçadas. E isso se aplica a empresas também, a Aracruz Celulose (hoje Fibria) também teve, segundo a mídia, a resistência dos indígenas quando instalou sua fábrica na Barra do Riacho, Espírito Santo. Na televisão saía que os "índios" tentavam impedir o desenvolvimento do estado. Depois eu soube que houveram vários massacres e, por fim, os indígenas foram dispersados a tiros. Os remanescentes que conseguiram fugir a tempo se reuniram sob a tutela da Funai e, vinte anos depois, constituídos em associação, conseguiram o "direito" de ocupar uma pequena área do que era seu e foi tomado. Imediatamente a empresa acusou o "absurdo", afirmando que ali nunca haviam existido originários e levantando uma enorme placa publicitária na estrada, dizendo "A Aracruz trouxe 1.500 empregos. A Funai trouxe os índios". É a canalhice criminosa que constitui a nossa sociedade.

O massacre do Pau Darco marca mais uma ação genocida no território nacional, pra vergonha de todos nós, imersos em valores falsos, induzidos a comportamentos e mentalidades que alimentam esse formato de sociedade, na visão de mundo produzida em laboratórios de pensamento e implantada pela mídia - como dizia Milton Santos (no filme "Conversas com Milton Santos - a globalização vista pelo lado de cá", do Silvio Tendler, documentário importante pra quem quiser formar uma visão de mundo própria, fora do padrão superficial que nos é imposto).

A barbárie social predomina, em áreas urbanas e rurais, em toda parte. A ação da polícia de Pau Darco, sob as ordens de um juiz local, não é novidade alguma. Vi o ódio das forças de segurança muitas e muitas vezes contra os pobres, urbanos ou rurais, que não se conformam com as injustiças que sofrem no cotidiano. Pelo que vejo, está carimbado na mente desses agentes que pobre tolerável é o de cabeça baixa, conformado em seu sentimento de inferioridade e impotência, agradecido por ser explorado e maltratado pelo sistema social - que é a "vontade de Deus", fazer o quê, né... Pobre que levanta a cabeça, questionando a injustiça social, reivindicando direitos constitucionais, é comunista, subversivo, inimigo da sociedade e da "democracia" - essa farsa absurda que descara o poder econômico, do mercado financeiro, do latifúndio, dos bancos e mega-empresas, sempre um punhado de parasitas podres de ricos que compram os candidatos em suas campanhas eleitorais e determinam as bases das políticas falsamente públicas.

Toda solidariedade às famílias dos assassinados, que ao menos se perceba como funciona esta sociedade anti-humana onde o patrimônio e o lucro valem mais do que a vida - não só a humana, mas todo o tipo de vida, o meio ambiente, as águas, as florestas, os micro-organismos, toda a base biológica da harmonia natural, da saúde do planeta. Uma sociedade injusta, perversa, covarde e suicida - em benefício de pouquíssimos e em prejuízo de todos nós.

http://apublica.org/2017/05/pau-darco-urgente-testemunhas-oculares-do-massacre-reforcam-tese-de-execucoes/

https://outraspalavras.net/deolhonosruralistas/2017/05/25/massacre-de-pau-darco-liga-dos-camponeses-diz-que-fazenda-fica-em-terra-publica/

http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/12586-pobre-para

Aqui se vê retrocesso no procedimento padrão, continuado, permanente desde a invasão européia. A Carta Capital é a esquerda de elite acadêmica, natural a visão sem pé no chão, embora também valiosa nas buscas de informação: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/para-sangrento-para

Na visão esterilizada da Globo, se vêem alguns elementos dispersores, embora os fatos sejam inegáveis e contundentes. Representantes de movimentos sociais continuam afirmando que a polícia é "despreparada", cegos ao fato que ela é preparadíssima pra fazer o que faz, que as forças de segurança existem contra os mais pobres desde sempre, porque são criadas pelas elites e não pela população. A necessidade de mídias independentes dos interesses comerciais se apresenta como pra "...enfrentar a guerra de comunicação e disputar a narrativa dos acontecimentos nas mídias sociais e alternativas para fazer frente a alguns parlamentares, comunicadores e grupos de policiais que estão incentivando a violência e criminalizando os trabalhadores assassinados" que estão incentivando a violência e criminalizando os trabalhadores assassinados". A mídia não pode assumir que esta é a pauta rotineira do seu "trabalho de comunicação", favorecer sempre a concentração de riquezas e poder, numa sociedade pobre de espírito. Taí: 
http://g1.globo.com/pa/para/noticia/vigilia-denuncia-violencia-no-campo-uma-semana-apos-chacina-em-pau-darco.ghtml

https://www.brasildefato.com.br/2017/05/31/chacina-em-pau-darco-tem-as-mesmas-raizes-do-massacre-de-carajas/

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Sobre o sistema jurídico da nossa sociedade

O foco do vídeo é o caso do Rafael Braga. Simbólico, retrata o funcionamento do sistema jurídico do país - que não se pode chamar de "justiça", porque trabalha por interesses, não por justiça. As escolas de direito formam malabaristas de leis, não agentes de justiça. Não há justiça institucional numa sociedade tão evidentemente injusta. Sem ingenuidade. Rafael, desabrigado, vítima de crimes do Estado, crimes sociais, como tantos milhões de brasileiros, foi preso num momento em que a polícia combatia manifestantes e tinha a incumbência de prender "vândalos", "baderneiros", na estratégia de criminalização das manifestações, como dar porrada nos grupos encurralados, atirar bombas e balas de borracha. Rafael não participava dos movimentos de protesto, ele passava numa rua próxima e viu, através de uma vitrine quebrada, um vidro de pinho sol e uma garrafa plástica de água sanitária. Lembrou da tia, morando em lugar insalubre, e pegou pra levar, colocou na mochila e seguiu em frente. Na primeira esquina deparou com o furdunço da fumaça, dos tiros, dos gritos e da correria. Ele estava atrás do pelotão policial que atacava os manifestantes e foi visto por um dos agentes. Mestiço, roupas pobres, foi interpelado imediata e agressivamente, enquadrado e revistado. A ordem era prender "vândalos" e o pinho sol com a água sanitária foram pretextos, quando o motivo era a condição social de Rafael. Qualquer um servia, melhor ainda pobre, preto, desabrigado e, pra "sorte" dos algozes, depois se descobriu que tinha uma passagem por furto - o que não é difícil, quando se vive na miséria dentro de uma sociedade francamente hostil aos miseráveis.

Há incontáveis casos igualmente simbólicos, embora pouco ou nada divulgados. 

A mulher que, abandonada pelo companheiro e com filhos pequenos, saiu a procurar emprego, deixando os filhos com uma vizinha - a quem destinaria parte do seu mísero salário de desqualificada. Estava sem água em casa e era repelida nas tentativas, por estar com mau cheiro. Entrou num supermercado - mal vestida, foi seguida - e usou um desodorante da prateleira. Antes que pudesse recolocar o desodorante de volta, se viu agarrada pela segurança, presa pela polícia e condenada em julgamento sumário a cumprir pena de cadeia. Seis anos depois, foi encontrada por uma dessas missões de advogados - geralmente em início de carreira - que acreditam no direito, e finalmente solta. Seis anos sem estar com os filhos, seis anos fora da vida, seis anos no inferno. Pelo uso de um desodorante, na intenção de encontrar trabalho.

O cara que, preso e condenado "por engano", inocente como se provou anos mais tarde, saiu da penitenciária contaminado com aids, em Belém. Inúmeros casos semelhantes, em que pobres pagam por crimes que não cometeram, ou são presos por pequenos delitos e se transformam em assassinos, vinculados a facções criminosas por uma questão de sobrevivência no cárcere.

Um sistema jurídico escroto, onde juízes se sentem deuses e dispõem de vidas com base em seus preconceitos sociais, pouco se importando com as conseqüências de suas decisões, destruindo vidas já sofridas, "inferiores sociais" que, na verdade, são vítimas de crimes contra a constituição cometidos pelo próprio Estado. A área jurídica, como todas as instituições, é corrompida pela própria natureza da estrutura social, ignorando os direitos básicos da maioria periférica, os serviçais da sociedade, os imprescindíveis que são mantidos na ignorância, na desinformação, condicionados a uma inferioridade falsa, artificial, planejada, estratégica na dominação de poucos sobre o todo, sobre toda a sociedade, fazendo do Estado uma espécie de Robinhude ao contrário, que rouba dos pobres pra dar aos ricos mais ricos, acima e por trás dos poderes que se fazem passar por "públicos", mas que nunca foram públicos de verdade.

Não é só na área jurídica que se impõe a falcatrua, mas em todo o espectro institucional. O que estamos vendo na farsa política - que de política só tem o nome - é mais uma demonstração da índole do sistema ditatorial no comando geral, onde mandam bancos e mega-empresas, associações patronais urbanas e rurais, sob a fachada de uma falsa democracia.

Segue a descrição do caso Rafael Braga, apresentado como "preso político" sem nunca ter participado de atos políticos, sem nunca ter pertencido a nenhuma organização de resistência e contestação ao sistema econômico-social. Um preso "político" sem consciência política, sem participação em movimentos organizados, sofrendo a ira de juízes conservadores cheios de ódio e ímpetos de vingança contra a população em protesto. Precisavam de bodes expiatórios e, diante de manifestantes presos que contavam com advogados ativistas, que eram de classes mais esclarecidas e politizadas e que tiveram como comprovar a ilegalidade da sua prisão, seguraram o pobre, preto, periférico - "esse não vai ter como sair". Mais uma demonstração da índole social que nos rege a todos.

Há milhares de Rafaéis Bragas no sistema penitenciário. Da mesma forma que há milhares de Amarildos, torturados e mortos pelas "forças de segurança", com ou sem culpa, crimes que ficam na impunidade porque o sistema é construído pra isso mesmo, perseguir, reprimir e agredir pobres, na manutenção dessa ordem espúria, vergonhosa, desumana, imposta pelos podres de ricos através dos seus fantoches falsamente "políticos", governantes, legisladores, magistrados, a porra toda.




domingo, 23 de abril de 2017

A barragem dos metais pesados nas águas do finado rio Doce

Em fevereiro de 2016 estive na parte capixaba do rio Doce, encontrei uma transposição do rio Doce, feito pela então Aracruz Celulose, hoje Fibria, que levava água para o rio Riacho, que não estava dando vazão às necessidades da fábrica de celulose. Isso por volta de 2009 ou 10, não estou bem certo, e contra a vontade da população, que se organizou, protestou, mas perdeu pros interesses empresariais, reprimidos pelo poder dito "público". 

Com a chegada dos metais pesados, nocivos à maquinaria, construíram uma barragem com filtros, que tirava os metais pesados da água, de modo que ela voltasse a servir na produção. Filmei, corri atrás de edição, analfabeto internético que sou e, finalmente, em julho, publiquei o vídeo. É a segunda vez que o trago a público, desta vez em foco principal.

A questão era: se há possibilidade de filtrar essa lama de rejeitos da mineração, por quê não se fazem filtros como esse desde lá de cima, no rio Gualaxo do Norte, onde estourou a barragem, e pelo rio do Carmo, até o encontro com o Piranga e a formação do rio Doce? Por que não se fazem quantas barragens dessa forem necessárias, na busca de uma diminuição no sofrimento dos cerca de três milhões de pessoas que vivem às margens do rio assassinado? Por quê as máquinas têm prioridade sobre as pessoas?

Perguntas fáceis de responder, quando se vê no Estado e em suas instituições uma grande farsa, a serviço dos poderes econômicos, na guerra das empresas contra os povos, uma guerra de dominação e conquista, de poder e controle, que cria ignorância e desinformação pra manter o sistema social sob a ditadura financeiro-empresarial em que se encontra.


sábado, 22 de abril de 2017

Relatos de delatores desmascaram o Estado

Nunca tinha visto as entranhas da sociedade serem expostas dessa maneira. Taí a explicação da miséria, da ignorância, da violência, da criminalidade, da barbárie, da situação de degradação social em que vivemos. Os relatos nas delações da Odebrecht mostram o corriqueiro dos procedimentos, nas relações da empresa com os poderes públicos. Não se trata só da área da construção. É óbvio que é da mesma forma em todas as áreas. A naturalidade das falas, "há trinta anos eu estou nesse ramo, há trinta anos que é assim"; os relatos das visitas, das conversas, dos encontros, das reuniões, mostram algo mais que um escândalo de corrupção entre uma empresa e um governo. Revelam como o Estado, o aparato público, as instituições funcionam, como é o seu modo de proceder rotineiro, recebendo dos ricos pra roubar os pobres. Pra enganar os pobres. Pra manter a pobreza.

O domínio de laboratórios farmacêuticos, indústria da medicina e as empresas de planos de saúde explica a situação da saúde pública, a penúria, o abandono, a desimportância, negada por números oficiais mas visíveis a quem quiser ver, na realidade.

As "revitalizações" que vieram em ondas, nestes tempos, puseram milhares de pessoas nas ruas. Só na Copa e nas Olimpiadas, as obras que interessavam às empreiteiras, financiadoras de campanhas eleitorais e midiáticas expulsaram de suas casas mais de trezentas mil famílias, grande parte sem direito a nada, exatamente as em piores condições. Em todo território nacional é a mesma coisa.

Em toda parte é senso comum obra pública superfaturada e sub-construída. Foi naturalizada a "roubalheira" que de vez em quando a mídia levanta pontual, focada em alguma área de interesse no momento, em disputas de espaço e controle, colocando todo mundo na rua a papagaiar suas falas inventadas, cheias de distorção calculada, controle mental em efeito. A sabotagem da educação facilita o trabalho da mídia, que foi toda construída pra fazer exatamente o que faz, distorcer a realidade e controlar a opinião pública. A gente aí, querendo o programado, vivendo condicionada, atrás de ilusões muito bem criadas pra ocupar as vidas.

De repente se descara o funcionamento do Estado. Tá explicado o massacre permanente dos povos originários, do massacre nas favelas, nas periferias. Tá explicada tanta maldade nos serviços públicos, tanta carência de recursos e tanto sofrimento. Tá explicada a ignorância, a miséria, a violência, a criminalidade. Tá explicado o abandono de tanta criança, tanto velho, tá explicada tanta exploração de tanta gente. Tá explicado o roubo geral de direitos constitucionais, humanos, básicos e fundamentais. São os interesses empresariais, com os bancos por cima, dando respaldo. É a "máquina de moer gente" do Darcy, em pleno funcionamento.

Grupos de milhares controlando uma sociedade de centenas de milhões, em seu benefício - como paga da sua traição pelos banqueiros e mega-empresários estrangeiros - e em prejuízo da própria sociedade.

As delações da Odebrecht são só a ponta do véu levantada, o véu institucional que cobre o funcionamento verdadeiro de toda a máquina pública, em sua dimensão nacional, regional e local, em todos os setores. As instituições, infestadas por dentro, servem de parte deste véu, sentem-se parte acima da sociedade, são induzidas a olhar os mais pobres como inferiores e não como vítimas de crimes sociais, a quem se deve reparação - no mínimo em respeito pessoal - em programas estatais de resgate das populações vitimadas pelo Estado. Pelo que se vê, a serviço empresarial, sempre, pois sempre há os que se beneficiam desses crimes coletivos. Toda a máquina estatal está aparelhada por interesses banqueiro-empresariais. As instituições não podem se resolver, foram criadas de forma a não funcionar em benefício da população, a não ser cenicamente, em pequena parte, infinitamente abaixo do que deveria, pra criar a imagem mentirosa de funcionamento.

Tá explicado também a brutalidade das forças de segurança, seu treinamento pra guerra, não pra paz social, verdadeiras forças de combate e de contenção de massa. Tá explicada a quantidade de investimento em armamentos "não letais" e caminhões pra dispersão de multidões. O povo é a principal vítima da estrutura, é de se esperar que se levante aqui e ali, em algumas ocasiões, mesmo com toda a idiotização da mídia. O investimento e a "formação" das forças de segurança é um elemento estratégico. É preciso que não se sintam parte do povo, é preciso distanciar, segregar, criar abismos. As instruções e treinamentos, de um lado, e o comportamento induzido dos agentes, agressivo com quase todos e violento com os mais pobres, cria a rejeição popular necessária, do outro lado. Taí a "cidade da polícia", "enclave" construído em Del Castilho, símbolo do que eu tô falando.

Tá explicado o predomínio dos valores empresariais na educação, em sua pequena fração que funciona, a particular, onde a sociedade é apresentada como uma arena competitiva, e não como uma coletividade que pretende a harmonia social. E que vença o melhor. Os outros merecem a "derrota". Essa a mentalidade criada, há muitas gerações. A educação pública é feita pra engabelar, claro, o mais imprescindível trabalho, sem o qual nada funciona, é o braçal, o "desqualificado" e o de "baixa qualificação", é preciso produzir a mão de obra, assim, traiçoeiramente. Interesses empresariais.

É preciso ver as instituições como elas são, uma fachada pra esconder o que acontece nos bastidores, de onde controlam a sociedade toda e infernizam geral. Não tenho aqui uma "solução" ou uma "saída", acho que antes de escolher o que fazer é preciso enxergar a realidade. Quanto mais gente vendo o que é e como funciona o Estado e suas instituições - e bancos, empresas e suas corporações, no controle - mais possibilidade de aparecerem soluções localizadas, onde e como se fazem necessárias. Decisões e mudanças pessoais são também são coletivas e modificam o trato com a coletividade.

Os que lutam contra moinhos, dentro das instituições, têm sua importância no constante denunciar, no apontar permanente das falcatruas institucionais. No uso de algo do aparato público em favor da população, por pouco que seja. Apenas não têm, de onde estão, a capacidade de mudança social desde a raiz.

sábado, 15 de abril de 2017

Chega de esperança

Esse vídeo foi gravado no final do ano passado, acho que não publiquei ainda. Fala em esperança. No momento, a palavra me pareceu ligada a "espera", a inatividade, sentaí e espera. É preciso atividade, serviço, fazer em vez de esperar. Como na frase que escrevi, "chega de esperança, é hora de atividança".

Minha visão é mutante, como tudo à minha volta. Mas à medida em que percebo a realidade, algumas coisas vão se firmando. É a sociedade da mentira, da simulação, do engano, da manipulação do pensamento, dos desejos, dos valores, dos comportamentos, dos objetivos de vida. Quando se percebe e não se deixa mais levar tão facilmente, a vida toma sentido, gosto, cor e valor. E não se confunde mais valor com preço.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Pensamentos no ônibus

A idéia era ir de bicicleta. Mas choveu e fui de ônibus. Aí tive que esperar sentado, no trânsito, enquanto pensamentos me passavam na cabeça. Tirei o caderno e anotei algumas coisas que passaram, entre tantas.
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Antes de exigir as respostas, é preciso aprender as perguntas. Perguntar também é um aprendizado. Se as respostas não estão satisfazendo, é preciso modificar as perguntas até ficarem tão claras e precisas que as respostas esclarecerão, mesmo sem precisar, sem dar precisão. No mínimo, ficará clara a vontade ou a existência de razões pra não haver respostas.
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Caminhei no escuro durante muito tempo na vida. Cheguei a pensar que nunca veria luz natural, que não existia, só as artificiais, falhas e falsas, sempre sucumbindo à escuridão. Ao longo dos anos, em alguns momentos tive a impressão de ver alguma claridade se esboçando longe, no céu. como um anúncio da madrugada.  Mas logo achava que era só impressão, mesmo. Vários anos se passaram até firmar a certeza de que tava clareando. Décadas. Hoje, percebo uma tonalidade claro escuro, tipo entre quatro e meia e cinco horas da manhã de dia limpo. O anúncio de que vem a aurora ainda distante, mas vindo sem contenção, a cada momento mais. Mais pra noite que  pra dia, a luz apenas deu o ar da sua graça. Longe ainda de nascer o sol, um conforto é a certeza intuitiva de que o calor e a luz virão acabar com o frio e a escuridão.
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Anotei essas, foram muitas, sempre são. O tempo todo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O descaramento da farsa

Pouca gente assistiu a tv senado durante a votação da pec 55. Os poucos senadores que se opuseram a essa traição do povo convidaram a economista Maria Lúcia Fattorelli, reconhecida internacionalmente e participante das auditorias das dívidas públicas de Equador e Grécia, pra expor as criminosas intenções dessa pec maligna. E ela expõe, magistralmente, apesar da linguagem inacessível a um povo estrategicamente sabotado em educação, as falcatruas mais que claras do projeto desses traidores da nação. Irrespondível intervenção, constrangedoras e dolorosas verdades são jogadas às caras-de-pau dessa casa legislativa que, depois, ignoraram tudo e aprovaram a emenda constitucional, mais um estupro à constituição brasileira em favor de banqueiros internacionais, de mega-empresas, dos parasitas sociais podres de ricos, miseráveis de espírito. Serviçais de luxo desses interesses, que financiam suas campanhas, os parlamentares não têm como não saber o que estão fazendo. A pec 55 foi aprovada e está em vigor, o resultado se vê nas ruas, com o aumento de desabrigados, de cracudos, da violência, da criminalidade explosiva que não pára de crescer. Enquando isso, a mídia aponta como solução o investimento no sistema de repressão e carcerário, sem tocar sequer nas causas. Seria uma estupidez, se não fosse intencional.

Se a intenção fosse diminuir a criminalidade e a violência, bastaria cumprir a constituição nos seus artigos de direitos humanos, bastaria o Estado garantir o que está previsto nessa chamada "lei maior", a "carta magna", base do funcionamento da sociedade. Garantir a cada brasileiro alimentação decente, moradia digna, instrução de qualidade, informação verdadeira, atendimento médico em qualquer necessidade, condições de desenvolvimento humano, seria muito mais barato que o pagamento de juros e amortizações dessa dívida, como afirma e reafirma Fattorelli, ilegal, ilegítima e socialmente catastrófica, permanentemente denunciada e não investigada. Basta falar em auditar essa dívida com os bancos internacionais e a mídia fica histérica, gritando "calote! calote!" pra difamar a iniciativa conduzindo - como é sua função - a opinião pública com suas mentiras criminosas. Demonstração clara do que é a mídia privada e a quem serve, traindo a população com suas seduções e distorções. É óbvio o interesse na manutenção do caos, da criminalidade apavorante e paralisante, da miséria e da ignorância que infernizam a sociedade.

Há muito tempo, Getúlio Vargas mandou investigar essa dívida, que era muito menor que hoje mas já esmagadora do patrimônio público, e se revelou ilegal em mais da metade, caindo pra 40% do que era. A grita dos traidores se fez ensurdecedora e as pressões foram tamanhas que levaram Getúlio ao suicídio político que impediu o golpe programado pra derrubá-lo. Dez anos depois, o governo João Goulart apontava na direção de uma democracia ainda distante, favorecendo a organização dos mais pobres, implantando um programa de erradicação do analfabetismo, investindo na educação do povo, implantando uma lei que controlava a remessa de lucros de empresas estrangeiras, decretando uma reforma agrária que distribuiria terras pra mais de um milhão de famílias de agricultores, estimulando a agricultura familiar na produção de alimentos e aproximando o produtor do consumidor, sem os intermediários que encareciam os produtos. Por isso mesmo, debaixo de calúnias e invencionices, esse governo foi derrubado e implantou-se a "ditadura militar", com a mídia proclamando a "volta da democracia". Era preciso manter a ignorância, a desinformação, destruir e impedir a organização dos explorados, destruir o sistema de educação pública e impor o enquadramento do ensino privado. E a ditadura banqueiro-mega-empresarial foi mantida, aprofundada, enraizada e se mantém a pleno vapor. O estado de degradação social em que vivemos é estrategicamente deliberado. A formação da ideologia reacionária, conservadora, raivosa e ignorante, quando não mau caráter, é produção encomendada por esses seres desumanos que chafurdam no luxo, na riqueza, na ostentação e no controle social pelo mercado financeiro, indiferentes ao sofrimento de milhões.

Investir pesado em educação verdadeira, em informação leal e nos direitos sociais é arrancar as raízes da barbárie periférica, da violência e da criminalidade. Mas isso é simplesmente proibido pelos usufrutuários dessa estrutura perversa, que financiam laboratórios de pensamento pra criar mentalidades que serão implantadas pela mídia, sempre baseadas em falácias, falsidades e mentiras, apontando soluções punitivas que jamais deram resultado em nenhum lugar do mundo. A base dessa mentalidade, atualmente  nos Estados Unidos, produziram naquele país a maior população carcerária do mundo - maior que a da China, que tem uma população mais de cinco vezes maior que os EUA. É nesse caminho que estamos postos, subalternizados pelas corporações financeiras. Não há polícia, não há sistema prisional que diminua a criminalidade produzida no atacado pela miséria, pelo abandono, pela exclusão, pela exploração desenfreada da população. Estamos "travando a inútil luta com os galhos, sem perceber que é lá no tronco que está o coringa do baralho", como já dizia Raul Seixas.

Gostaria de lembra à esquerda arcaica a fala profunda de Fidel Castro - "acabou o tempo da revolução com fuzis. Hoje a revolução só pode ser feita com a conscientização". É preciso substituir o espírito de combate pelo de serviço. Obviamente será preciso um trabalho interno, individual em primeiro lugar, pra escapar do sentimento induzido de superioridade acadêmica, na criação da humildade necessária ao trabalho. Ninguém está imune aos condicionamentos do sistema social - através do modelo de educação e, sobretudo, do massacre midiático-publicitário que assola a coletividade como um todo. É igualmente preciso substituir a visão míope e imediatista pela visão a médio e longo prazo, deixando de lado as instituições dominadas e controladas, servindo nas periferias onde se encontram as pessoas mais importantes, imprescindíveis, sem as quais nada funciona. O trabalho mais necessário, mais indispensável de todos, é o trabalho braçal. Sem ele, não tem doutor que consiga exercer o seu ofício, seja qual for. Uma obviedade que passa, estrategicamente, despercebida, mas que pode ser facilmente demonstrada - a quem interessa, claro, os periféricos.

Ali, nas periferias, se encontra a sabedoria, a capacidade de superação, a resistência, ainda que inconsciente. No centro dos valores sociais, nas academias, se encontra segregado o saber, restrito a camadas minoritárias da população. Quando os que têm acesso ao saber descerem dos seus pedestais de vidro - a indução do sentimento de superioridade - ganharem o privilégio da humildade e se dispuserem a servir os que tiveram seus direitos roubados dos conhecimentos que lhes foram vedados, o saber se encontrará com a sabedoria e a evolução do sistema social será inevitável. Isso sabem os parasitas sociais, daí a sabotagem sistemática da educação e o controle férreo das comunicações do país, dominadas por poucos podres de ricos traidores da nação, a serviço de mega-interesses estrangeiros.

É preciso enxergar a realidade além do que é permitido, a partir das conseqüências escancaradas na sociedade como um todo. Como dizia Helder Câmara, "quando eu divido meu pão com os pobres, me chamam de santo; quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista". É proibido desvendar as raízes da degradação social, porque elas são criadas e mantidas pelos que dominam a sociedade, muito acima dos "poderes públicos", nos bastidores da farsa apresentada como "política", cuja finalidade é criar a ilusão de que o sistema é democrático. Chamar de política essa encenação de marionetes, impotentes pra tocar na estrutura dominada pelos vampiros no mercado financeiro, mas com o poder de trair toda a população, é colaborar com essa falcatrua, essa armação que torna a sociedade injusta, violenta, perversa, covarde e suicida.

Pra assistir a exposição do descaramento, https://vimeo.com/160568538.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Tinha uma boca no meu caminho

Eu estava passando perto de uma boca de fumo, quando um dos caras - parecia o gerente - me reconheceu da internet e me abordou, perguntando o que eu achava do juiz Sérgio Moro. "Tu acha que ele veio pra acabar com a bandalheira?" Escondi meu incômodo com a pergunta e pensei que, se dissesse o que penso dessa triste figura, iria bater de frente com o que ele pensava, pelo brilho nos olhos dele. Era esperança.

Então falei da globo, citei várias falcatruas que vieram a público e toquei num ponto chave, Brizola e os CIEPs. O pai dele havia estudado num CIEP. Largou o crime pra estudar, porque tinha tudo na escola, comida, médico, dentista, futebol, capoeira, música, teatro, era o dia todo lá. Conseguiu passar num vestibular, mesmo trabalhando, quando ele era um bebê ainda, e só não se formou porque foi vítima de um tiro da polícia quando chegava em casa à noite, muitos anos depois de sair do crime. Foi confundido com um traficante conhecido na área, risco cotidiano pra quem mora em favela. Ele estava, na época, com nove anos e chorou quando me contou, "ele tava quase se formando, dizia que ia mudar pro asfalto com a família toda. Não ia pra longe da favela não, que todos os nossos amigos moram aqui. Ele só queria uma casa com quintal, com mais espaço pra todo mundo". Aproveitei essa revelação e lembrei de como a globo atacou a construção do sambódromo, boicotando até o primeiro carnaval lá, do ódio do jornalismo contra os CIEPs, evidenciando o horror que as elites dominantes têm da instrução popular, da fraude eleitoral revelada, com a globo desviando urnas pra impedir a eleição do Brizola, do apoio total ao Moreira Franco, que o sucedeu no governo do Rio e comandou o desmonte do projeto dos CIEPs. E depois, quando o sambódromo bombou, mundialmente, a globo comprou o espetáculo e dominou a área.

À medida que eu falava as coisas que ele sabia, mas não havia conectado, fui vendo a compreensão surgindo a respeito das comunicações criminosas que vigoram nesta sociedade dominada e aí foi só pegar a onda. "Pois é, a globo apresenta esse juiz como a salvação da pátria, como herói... por quê que tu acha que eles elogiam tanto o cara?" A resposta veio rápida, "porque ele fecha com esses furingo". Eu sorri e me despedi, "vou nessa parceiro". "Porra, eu sabia que tinha que falar contigo", ele disse. Eu me senti altamente elogiado. Aí ele me complicou, "então qual é a solução?" Mas eu me vali da intuição que é farta nas periferias e respondi "não tem solução, parceiro, tem caminho, tem serviço, tem a vida pra viver e a gente precisa aprender a ver a realidade sem se deixar levar pela televisão". Ele abriu um enorme sorriso cheio de dentes brancos, "aí tá certo".

Fui embora, ouvindo ainda ele falando com outro, "já viu esse cara falando na internet?"

segunda-feira, 13 de março de 2017

Chuva na noite em Itabuna

Uma vez, em Itabuna, eu viajava sozinho e tinha entrado na cidade pra arrumar um qualquer e seguir viagem, fui dormir na madrugada depois do mangueio nos bares e  nos puteiros da noite. Já tinha arrumado a mixaria pra pegar a estrada, mas resolvi aproveitar o restinho da noite pra dormir um pouco, ainda mais que as nuvens pesadas no céu anunciavam uma daquelas chuvas grossas. Era uma marquise com o degrau da loja largo, onde estendi o papelão e me estendi em cima, cabeça na mochila. Era próximo ao movimento da noite, que varava até dia alto, a presença de gente tornava a dormida mais segura. Ainda esperava o apagar do sono quando começou a chover, primeiro gotas esparsas, então o ritmo aumentava até o toró despencar. Olhei a rua, através do cinza da cortina de água que caía vi tudo vazio, algumas mesas e cadeiras na chuva, em alguns toldos pessoas se encolhiam dos respingos, a maioria havia entrado nas casas e bares. Eu estava abrigado pela marquise, mas a violência da água no chão salpicava gotas sujas, pensei "preciso dormir antes de ficar molhado, depois é mais difícil." Foi quando passou um grupo correndo, alguns protegiam a cabeça, com bolsas e pedaços de papelão, praguejando contra a chuva. Passou como um relâmpago na minha cabeça a necessidade de chuva naquela região, atentei no egoísmo inconsciente e falei comigo mesmo, "os caras tão indo pra casa, onde tem toalha, banho quente e roupa seca... não têm do que reclamar e estão reclamando." Me ajeitei melhor, de costas pros respingos, fechando os olhos e tentando dormir. E sonhei saudade. Não de algum lugar, de alguém ou de alguma situação específica, mas de ter uma casa, qualquer que fosse, mas que tivesse dentro panos secos, um fogão, um banheiro. Uma saudade boa, tranqüila, um sono que me descansou mais do que eu esperava e me pôs em ótimas condições de humor pra pegar a estrada e tratar com as caronas da vida. O molhado da roupa até refrescava no sol que esquentava desde o amanhecer. O céu estava limpo de nuvens. E secou os panos antes da primeira carona, no rumo norte que eu estava.

(Isso foi no início da década de 80)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Feira, estradas e Caetité

Seguindo a estadia no Capão, seguiram os acontecimentos. Estou com seis encomendas embaladas e prontas pro envio, até hoje sem postar. Um dia fomos a Palmeiras resolver umas coisas, levei os tubos com desenhos pra remeter. Paramos pra comer na chegada, estacionando ouvi o barulho da tampa de trás da kombi, estranha sensação - a de que poderia ter caído coisa do bagageiro na turbulenta estrada de terra, cheia de subidas, descidas e sacodes gerais. Fui conferir, estava mesmo aberta, já olhei esperando ver o tamanho do prejuízo. Dei falta de três das encomendas e, incrivelmente, mais nada. Caixas, estepe, bolsas, ferramentas, cajón, tava tudo ali. Lamentei pelas encomendas, com alívio porque podia ter sido bem pior. Mas perdi o ímpeto de ir ao correio e decidi refazer as remessas em casa. Na volta ao Capão, fui avisado de que pessoas andando pras trilhas haviam encontrado uns tubos que pareciam encomendas na estrada, um deles atropelado, mas dois outros intactos. Afinal, voltaram à noite pras minhas mãos, através de amigos que conheciam as pessoas que acharam. Alívio, congratulações, retribuições foram feitas, as encomendas recuperadas. Os desenhos atropelados foram substituídos, de amassados que estavam. Na verdade gosto desses amassados, marcas são cicatrizes de vivências. Separo pra interferir depois, com tintas ou não, e dificilmente ponho à venda. Cicatrizes são marcas de histórias. Ganharam personalidade própria, ficam guardados pra ocasiões especiais em que são presenteados. Mas a partir daí a viagem ganhou um ritmo que não permitiu a remessa dos seis, novamente juntos, até hoje que estou em Beagá, em pleno carnaval.

Fomos a Feira de Santana, convite na UEFS. No caminho, a gruta sacralizada que já tinha me chamado a atenção em outras passagens foi fotografada. Na paisagem impressionante da chapada, a religiosidade sertaneja mostra suas peculiaridades. Não parei nem pesquisei essa gruta, há um pequeno restaurante caseiro na estrada - estava fechado - e marcas de peregrinação no caminho até a pedra, onde há uma cruz branca na entrada da caverna.

São trezentos e cinquenta quilômetros até Feira. Chegamos no fim da tarde, quase na hora da palestra, fomos ao local e rolava um papo com desabrigados - os chamados "moradores de rua". Assisti um pouco, mas o cachorro se ouriçou com as palmas e roubou a cena, me obrigando a sair com ele do auditório. Fomos à casa dos nossos anfitriões, Vinícius, Ingredy e Iggor, aí banho, janta e toca de volta pro auditório. Expusemos também, claro, dormimos e retornamos ao Capão no dia seguinte, já na preparação pra descida de volta. A palestra estava cheia de gente e interesse, o sentimento de proveito justifica todo o esforço.

Auditório do módulo 2, na Universidade Estadual de Feira de Santana.
De Feira voltamos ao Capão, já no preparo pra começar a viagem rumo sul, com a primeira parada em Caetité. Saímos pela estrada de Seabra, onde Celestina exigiu um pneu novo. Eu não havia entendido um caroço surgido na sola, que acabou consumindo a borracha até aparecer a lona. Mas o borracheiro esclareceu tudo, alguma pancada forte arrebentou os arames internos e aí a pressão do ar estufou a área, desgastando o pneu. Com a quantidade de estradas de terra por onde temos passado, não é de se estranhar, algumas em estado tão precário, com tantas pedras, que a velocidade precisa ser a de caminhada a pé. Às vezes dá pra pegar uma velocidadezinha maior, sempre com o risco de empedrar depois de uma curva ou uma lombada - e é aí que tá o perigo, de repente encrespa em pedras ou buracos e fica difícil evitar algumas pancadas.

Seguimos de Seabra em sentido leste, até Lagoa de Dionísio, onde viramos pro sul, estrada ao longo da chapada no lado oposto a Lençóis, oeste da região. Eu tinha visto o mapa no gúgol e era o menor caminho. O que esse gúgol traíra não avisou era que as estradas por ali estavam em péssimas condições, desde sempre. Fomos em asfalto até a primeira cidade, Ibitiara, ali paramos pra comer e pedir informações. A expressão no rosto das pessoas era inequívoca, a estrada era terrível. Mas já estávamos ali e seguimos adiante. Houve até quem duvidasse da Celestina, "com aquela kombi ali? Cês não chegam lá não". Ora, minha senhora, não tem arrego, vamos em frente. Dali a Novo Horizonte o caminho foi duro, a estrada era muito ruim. Realmente mais perto, mas a buraqueira obrigava à lentidão. Foram mais de quatro horas pra percorrer os oitenta quilômetros.        
       
O sol acabara de se pôr quando, numa das encruzilhadas, encontramos uma placa indicativa improvisada, a primeira legível. O caminho passava por Novo Horizonte e seguia pra Ibiajara. Anoiteceu e a estrada, toda esburacada e cheia de pedras, não permitia desenvolver velocidade acima da caminhada. A impressão era de que não tinha fim, ao longe não víamos nada, nenhuma luz. Uma hora pedi a Clara pra fotografar a estrada pelo parabrisa, em movimento mesmo. Ficou uma imagem meio surreal, mas eu gostei.
A máquina tava com flash, não houve jeito de tirar.
                                                                                 Havia bifurcações, entradas, e eu no instinto, escolhendo, raras placas indicativas, algumas ilegíveis. Chegamos em Novo Horizonte, passamos, continuava estrada de terra, pior, mais esburacada e empoeirada. Mais bifurcações e entradas. Depois de muito tempo sem encontrar nada, cruzamos um cara de moto, fiz sinal e ele parou. Perguntei se era a estrada certa, ele coçou a cabeça e, enquanto confirmava com um aceno, disse "mas tem uma serrinha terrível de passar aí, a estrada vai piorar muito". Nós nos olhamos sem dizer nada, nem precisava - voltar nem pensar -, vamos em frente. A gente já tinha uma dica, dada em Novo Horizonte, "quando encontrar uma ladeirona braba, repare uma saída antes, de pedra, meio escondida no mato, passe por ali que contorna o morro e sai do outro lado". Tão escondida no mato que passamos direto, subindo uma "parede" de pó e buracos até ficar impossível. Aí percebemos que era a "ladeirona braba", descemos de costas, de um lado o barranco, do outro um abismo escuro. Pisca-alerta ligado, por via das dúvidas, bem devagar, mas como não passava nada, não houve problemas. Passamos pela estradinha de pedras, também inclinada ao extremo mas, com a aderência melhor, passamos.
                                                                              
Estávamos na BA 152 e, até chegar a um asfalto, muito precário ainda, passamos por Ibiajara e Tanque Novo. Aí começou um asfalto tão esburacado que me fez ter saudade da terra. Era a BA 156, nos levou à BR 430, aí, sim, uma estrada transitável. Chegamos a Caetité no início da madrugada. Thulio e Ailton nos esperavam na entrada da cidade. A pousada MCM, de Márcio e Ione, que nos acolheram, ficava ao lado, diante de uma praça, ao lado de um quartel.

A exposição foi no dia seguinte, na praça da árvore. Pra minha surpresa dois policiais armados levaram o som e instalaram. Eram amigos dos que me convidaram, músicos ambos. A exposição começou bem antes da palestra, coisa rara, ficamos por ali papeando, trocando idéias, enquanto chegava mais gente. A data não favorecia, véspera de carnaval, mas veio gente suficiente pra fechar o círculo da arena no meio da praça. Roquenrou, o cão, andou livre na área até a hora de começar o papo, aí se recolheu - ou foi recolhido - à Celestina, ali bem próxima.

Chegamos cedo, armamos a exposição e esperamos o povo chegar. Celestina ficou perto.
À noite, palestra - de camisa vermelha, falo (com microfone) ao fundo. Clara e Tito na exposição.
O dia seguinte, sábado "de carnaval", tomamos o rumo de Montes Claros, a caminho de Belo Horizonte. Paramos pra dormir a 50 km de Sete Lagoas, às quatro da manhã. Asfalto bom é outra coisa.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O sistema tem suas raízes em cada um de nós


Uma sociedade verdadeiramente humana será uma sociedade onde não haverá miséria, ignorância e abandono - uma vergonha do passado, então inconcebível. Qualquer um que apresente qualquer argumento explicando a inviabilidade de uma sociedade assim, apenas me provoca um riso amargo. Não há produção suficiente de alimentos? Não existem conhecimentos, logística, condições de eliminar estas excrescências da face da terra? Ora, é claro que existem.
O que acontece é que a acumulação, a concentração de riquezas, propriedades e privilégios precisa roubar direitos, mantendo populações em condições de barbárie, precisa de ignorância, desinformação, miséria e abandono pra seguir explorando populações e saqueando riquezas, moendo gente, destruindo potenciais e vidas, sujando e envenenando, tanto o planeta quanto as almas, as mentalidades, os comportamentos. Devemos a isso o estado de degradação social em que vivemos.
Querer vencer na vida é sustentar isso. Competir é manter o modo de relacionamento social. Acreditar nas informações e "opiniões" dos veículos de comunicação é envenenar a mente e receber uma visão de mundo completamente distorcida. Querer o que é induzido pelo massacre publicitário em suas sutilezas sedutoras é o alimento do sistema social. Não ligar a violência e a criminalidade ao desequilíbrio social absurdo, à miséria, à pobreza e aos valores distorcidos pela publicidade e pela propaganda ideológica subliminar da mídia, acreditando que repressão e encarceramento são algum tipo de solução - ou mesmo contenção - pra situação de terror cotidiano, pros níveis de criminalidade, é ter a mente lavada, enxaguada, teleguiada, entorpecida e estupidificada. 
Pretender mudar um sistema que estimula a competição, o confronto e a disputa, confrontando, disputando e competindo - ainda mais dentro das instituições, infiltradas e dominadas pelos poderes econômicos - é de uma ingenuidade mais que inútil e incapaz. Acaba sendo a "prova" apontada pelos defensores deste sistema social criminoso de que a farsa política é realmente uma "democracia", alegando que não se poderia falar assim se não fosse uma democracia. Alegação mentirosa, obviamente. Pode-se falar como esses pretensos revolucionários falam porque eles não tem nenhum poder de mobilização popular, em seus condicionamentos de superioridade social, em seu doutrinarismo estéril, em sua arrogância e pretensão de liderar, organizar e conduzir as massas. Pensam que estão lutando por uma sociedade igualitária, mas estão é colaborando com essa estrutura desumana, ajudando a construir o cenário do teatro macabro. Se alcançassem humildade, perceberiam. Eu percebo que há muitos se tocando. O processo tem seu ritmo.
Em cada um de nós há raízes dos condicionamentos sociais produzidos em laboratórios de pensamento bem pagos, contratados por um punhado de parasitas sociais podres de ricos - que não participam do caos que provocam, cercados em suas fortalezas com muros eletrificados e exércitos bem armados de seguranças privadas. Estamos expostos a isso desde o útero materno e ingenuidade é pensar que nossa vontade é toda nossa, como nossa visão de mundo, opiniões, sentimentos, desejos,... esta percepção, a meu ver, é a primeira de todas. E o trabalho interno, o mais importante. A coletividade é formada por todos e cada um. Trabalhando em si mesmo, o trabalho se estende automaticamente ao coletivo, sem pretensões de ensinar, liderar ou conduzir. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Jacobina, Bahia, norte da Chapada Diamantina

Verificação e ajustes, de acordo com o comportamento do motor.
A estrada do Capão tem 20 km de terra, buracos e poeira, antes de chegar a Palmeiras. A verificação da foto foi feita nos Campos, entre o Capão e Palmeira. Coisa de ajuste na cebolinha, que mede a pressão do óleo. Na madrugada, perdemos a entrada pra Cafarnaum e aumentamos a viagem nuns 70 km, por Irecê. Pelo menos as estradas eram boas, ao contrário da volta. Era sexta de noite.

A viagem a Jacobina foi iniciativa de Gaby Barbosa, exceção infiltrada na área jurídica, esse emaranhado intricado pros mortais comuns, historicamente montado pra servir aos poucos e conter os muitos. Chegamos de manhã, no sábado, à tarde fomos até a mineração de ouro que domina o lugar, como a Vale domina o Rio Doce e com a Samarco domina vários municípios no alto do vale. Lembrei da devastação planetária que vi por lá, com total conivência de prefeituras, câmaras legislativas e governos, tanto estadual quanto federal. Ditadura mega-empresarial, liderada por banqueiros. Sinistro de dar calafrios.

Mentiras - o objetivo, a qualquer custo, são os altos lucros.
As histórias que ouvi são muitas. Duas vezes por mês sai um avião carregado de ouro. A cidade sofre uma operação gigante, todo o percurso do ouro é vedado à população. Os empregados da mineradora ficam trancados num galpão pra não verem nada, enquanto o ouro é retirado. Uma vez, carregado demais, o avião caiu e em instantes a área estava isolada pela segurança armada com um círculo de segurança feito pela polícia local - que tampouco teve acesso às proximidades. A sujeição do "poder público" é óbvia ao poder econômico privado, as mega-empresas têm prefeitos, legisladores, governadores em seu bolso. A hipocrisia prevalece em todas as comunicações, tanto da empresa quanto das "autoridades", quando se dirigem à população. Os subterrâneos são podres. Há notícias de cemitérios clandestinos, com corpos de funcionários mortos por doenças pulmonares, como salitrose - ou coisa parecida, areia que endurece o pulmão e impede a respiração. Ao se sentirem ameaçadas em seus poderes ou ganhos, as mineradoras se tornam monstruosas, a população local que o diga. Ainda na instalação da empresa, foram expulsos todos os moradores do vale seguinte à exploração do ouro. Depois, com a organização pra se defenderem,            
As marcas das expulsões permanecem na frente da represa de rejeitos.
começou o terrorismo institucional e empresarial contra os moradores que resistiam. Uma velha e conhecida história de crimes contra a humanidade cometidos por essas mega-empresas, com a conivência e a cumplicidade dos poderes falsamente públicos. O cenário lembra a promessa de devastação que começou em Mariana e atingiu todo o vale, até o mar em Regência, onde continua a empestear há mais de ano.

O aspecto sinistro emana nocividade.
Andamos por ali sentindo a freqüência no ar, peso de crime organizado de alta máfia, senhores de vidas e patrimônios, sorridentes bandidos que espalham migalhas angariando a simpatia dos ignorantes. Procedimentos padrão, há séculos, que estão sendo denunciados cada vez mais, na busca de esclarecimentos sobre os bastidores sociais e empresariais mancomunados contra os povos. O padrão é mundial, como o domínio sobre os Estados.

A informação, a instrução, a consciência das pessoas é o terror desses criminosos que têm as leis nas mãos pra barbarizarem como querem, em busca das riquezas que serviriam de sobra pra acabar com a miséria, a ignorância, o abandono, o sofrimento pela omissão do Estado no cumprimento da sua constituição. Todos os movimentos coletivos que se põem a esclarecer a população, conscientizando da destruição dos mananciais e da natureza já tão sacrificada, são alvo de discriminação, difamação e perseguição.

Ainda no sábado, fomos a um evento onde conhecemos o trabalho de Joan Sodré, um Raul Seixas jacobinense, com presença de palco, ótimo som, cantou músicas do próprio Raul e também dele mesmo. E, devo dizer, com a mesma qualidade do Raulzito em suas letras e músicas.

Levando os painéis de exposição
A exposição foi domingo, na praça do CEU, com exibição do documentário Observar e Absorver e palestra. Creio ter tido bastante proveito. E as vendas compensaram bem o deslocamento. Bons plantios em terra fértil.

Chegando...


Levando mais painéis.

No final do encontro, a foto da saída. Atrás, Celestina espera já carregada, pronta pra partir.

Claratendimento direto.

Mostrando e explicando o trabalho.
 O filme rolou dentro do auditório, a exposição e as falas foram fora. Falei e respondi perguntas até acabar o tempo e mandarem parar.
Levi na fita.


Teve gente de esquerda e de direita, anarquistas e não alinhados em nenhuma ideologia definida. Todos de boa vontade, pelo menos naquele momento, os olhos eram bons e emanavam bons sentimentos. O entendimento rola melhor quando é assim.
Com Gilson Pereira, dom Quixote da moralidade em Jacobina
 Saímos na segunda à tarde da casa de Beto e Gaby, depois de várias boas conversas e com o som de Joan Sodré no violão, ali na cozinha, tomando café com a gente. Gilson também apareceu por lá, na sua hora de almoço que foi esticada ao máximo. Estavam Levi e Bianca - várias fotos são deles. A despedida foi entre corações. Gente que tem como objetivo a harmonia e não a vitória, a solidariedade e não a competição. Exceções ás regras sociais da mediocridade, do egoísmo e da vaidade. Todos parecem saber que vencer na vida é, na verdade, perder a vida com superficialidades, com formas sem conteúdo, com angústias e frustrações.

Levi, Cândida, Bianca, Eduardo, Clara, Gaby e Beto, na despedida de Jacobina.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Mídia e Estado canalhas

Há quem se espante com a canalhice da mídia. Mas ela foi criada canalha, com a expansão de um jornalzinho na forma de rede nacional de televisão, com centenas de repetidoras pelo país, de tv e rádio, sem falar nas publicações escritas. Foi desenvolvida ilegalmente com a tecnologia e a grana da Time-Life estadunidense, a partir do golpe de 1964, pra servir aos interesses das corporações estadunidenses, subalternizando a mentalidade da população aos valores estadunidenses, levando à idolatria do império das corporações que nos assola desde a segunda guerra, onde foi subalternizado o exército brasileiro ao estadunidense, com a deformação ideológica da oficialidade na Escola das Américas, no Panamá mas estadunidense, incutida de um anti-comunismo obsessivo e ignorante - o pânico e o ódio dos exploradores de pessoas e recursos na construção de riquezas privadas.
Não são casos episódicos, é a natureza da mídia, desde sua criação. O controle das comunicações é estratégico na dominação do país, no saque permanente com a cumplicidade das elites locais, sempre traidoras do seu próprio povo e nação, que desprezam, enquanto bajulam e admiram os saqueadores, exploradores e opressores estrangeiros, punhado de parasitas sociais que infernizam o mundo com seus mega-poderes.
"O comunismo vai acabar com o mundo!", gritam os que estão acabando com o mundo. Hoje, "comunista" é o insulto contra qualquer um que tenha preocupações humanitárias, que deseje menos injustiça social, que se preocupe com a população sabotada em seus direitos humanos, básicos, fundamentais e CONSTITUCIONAIS.
Um Estado seqüestrado pelo poder econômico de um punhado de podres de ricos, que não cumpre sua própria constituição, é uma organização criminosa simulando poder público, encenando uma farsa chamada de "democracia", mas que não passa de uma ditadura banqueiro-empresarial da qual a mídia é porta-voz e encarniçada defensora. Não é à toa a destruição do ensino público, a sabotagem da educação. É o impedimento da instrução, da formação de senso crítico e de consciência.
Perceber a mídia como ela é - e sempre foi - é um passo fundamental pra se começar a ver a realidade como ela é, ao contrário do que a mídia mostra. Isso aqui tá muito longe de ser uma democracia. Instituições ditas "democráticas" estão tomadas, infiltradas, dominadas pelos interesses parasitas mundiais, através e com a cumplicidade comprada das elites locais - e governantes, legisladores e juristas patrocinados.
Em vez de se lamentar, se revoltar, se decepcionar, desistir, se deprimir, é preciso se ligar, mudar de atitude, de desejos, de objetivos, de visão de mundo, de comportamento. Então, mudam as formas de relacionamento, mudam os sentimentos em viver, muda o mundo, no seu ritmo. E se ganha sentido.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Na cara de todo mundo...

Tô vendo o nível do descaramento, esperando a "inteligentzia" brasileira se ligar no que acontece e sair da superfície. As instituições não funcionam pelo povo, mas contra ele. Os governantes seguem as ordens dos mega interesses estrangeiros e desmantelam a sociedade, ponto a ponto, amarrando e amordaçando a população nas instituições falsamente "democráticas". O país está claramente em caos, o setor público sendo saqueado, direitos parcos e conseguidos com muito sacrifício de muitíssima gente sendo destruídos no focinho de todo mundo. Tô esperando os instruídos, os investidos em cargos, os honestos, bem intencionados que têm legitimado as "instituições democráticas" tentando inutilmente mudar suas atuações anti-democráticas, se manifestarem publicamente e fecharem com os trabalhadores da base, os periféricos, os informais, os encanadores, faxineiros, ajudantes de pedreiro, diaristas, gente que convive e supera cotidianamente dificuldades e obstáculos, desprezo e exploração. Aí começa um movimento avassalador, invertendo a vassalagem, a submissão e a opressão pra liberdade.
Quanto mais será preciso pros bem intencionados dons quixotes da institucionalidade - uns poucos entre pulhas - assumirem a realidade? Os mais fortes são mantidos na ignorância e na desinformação, no controle mental e no policial. Pessoas em condições degradantes, sem direitos humanos - e constitucionais - respeitados, com todo potencial a ser desenvolvido na formação de uma sociedade menos injusta e desarmônica. Populações inconscientes da sua própria força e capacidade de superação.
Multidões convencidas de uma inferioridade e uma impotência falsas, impedidas no desenvolvimento humano integral que lhes é de direito, na formação criminosa das legiões mais indispensáveis ao funcionamento de toda a sociedade - os trabalhadores braçais, a chamada "mão de obra de baixa qualificação".
Informar e instruir os que tiveram esses direitos negados é uma obrigação social, não caridade ou ajuda. É interesse de todos os que desejam uma sociedade menos injusta, sem miséria, ignorância e abandono - por conseqüência, com baixíssimos índice de violência e criminalidade. Investir em repressão e encarceramento seria uma estupidez, se o objetivo fosse a harmonia social. Seria necessário investir na população, além de acabar com o controle das comunicações por empresários e torná-las de fato públicas. Servir de instrução não enquadradora e de informações verdadeiras a todos é uma necessidade social pra harmonizar as relações sociais. Em verdade teria que ser um programa de Estado, no resgate das vítimas de crimes sociais, roubados por gerações em seus direitos humanos.
Mas a harmonia social está longe de ser o interesse de quem controla a sociedade, dos seus bastidores, escondidos dos holofotes da mídia. Ao contrário, a instrução, a informação, a união, a solidariedade e a consciência da grande maioria é seu terror. Eles cairiam sozinhos das costas dos povos, sem precisar ninguém derrubar, porque são fracos e dependem dos mais pobres todo o tempo, pra tudo. Fácil entender os porquês das estratégias desumanas, do controle midiático, da destruição da educação, da criminalização e perseguição da resistência, do controle da farsa política.
Autonomia é o desenvolvimento a se levar adiante. A pulverização impossibilita a concentração e o controle. Autonomia mental, pra começo de serviço, já é o alicerce necessário. A limpeza nos próprios condicionamentos, valores, visões de mundo, desejos, objetivos de vida, comportamentos e formas de relacionamento com as pessoas, com o mundo e com os acontecimentos. Aí está a chave de ignição da tomada de controle sobre a própria vida. Dentro de si em primeiro lugar, no coletivo por conseqüência.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.