segunda-feira, 13 de março de 2017

Chuva na noite em Itabuna

Uma vez, em Itabuna, eu viajava sozinho e tinha entrado na cidade pra arrumar um qualquer e seguir viagem, fui dormir na madrugada depois do mangueio nos bares e  nos puteiros da noite. Já tinha arrumado a mixaria pra pegar a estrada, mas resolvi aproveitar o restinho da noite pra dormir um pouco, ainda mais que as nuvens pesadas no céu anunciavam uma daquelas chuvas grossas. Era uma marquise com o degrau da loja largo, onde estendi o papelão e me estendi em cima, cabeça na mochila. Era próximo ao movimento da noite, que varava até dia alto, a presença de gente tornava a dormida mais segura. Ainda esperava o apagar do sono quando começou a chover, primeiro gotas esparsas, então o ritmo aumentava até o toró despencar. Olhei a rua, através do cinza da cortina de água que caía vi tudo vazio, algumas mesas e cadeiras na chuva, em alguns toldos pessoas se encolhiam dos respingos, a maioria havia entrado nas casas e bares. Eu estava abrigado pela marquise, mas a violência da água no chão salpicava gotas sujas, pensei "preciso dormir antes de ficar molhado, depois é mais difícil." Foi quando passou um grupo correndo, alguns protegiam a cabeça, com bolsas e pedaços de papelão, praguejando contra a chuva. Passou como um relâmpago na minha cabeça a necessidade de chuva naquela região, atentei no egoísmo inconsciente e falei comigo mesmo, "os caras tão indo pra casa, onde tem toalha, banho quente e roupa seca... não têm do que reclamar e estão reclamando." Me ajeitei melhor, de costas pros respingos, fechando os olhos e tentando dormir. E sonhei saudade. Não de algum lugar, de alguém ou de alguma situação específica, mas de ter uma casa, qualquer que fosse, mas que tivesse dentro panos secos, um fogão, um banheiro. Uma saudade boa, tranqüila, um sono que me descansou mais do que eu esperava e me pôs em ótimas condições de humor pra pegar a estrada e tratar com as caronas da vida. O molhado da roupa até refrescava no sol que esquentava desde o amanhecer. O céu estava limpo de nuvens. E secou os panos antes da primeira carona, no rumo norte que eu estava.

(Isso foi no início da década de 80)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Partiu Itajubá

A imagem pode conter: textoSaindo pela Dutra até Lorena, subindo a serra até Itajubá. Participação no sábado desse evento. Na volta espero trazer histórias.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.