terça-feira, 20 de setembro de 2016

Celestina em risco...

No segundo ataque cardíaco em duas semanas, Celestina corre risco de ficar pra trás. É preciso um bloco novo pro motor, provavelmente uma retífica e isso fica em mais de quatro mil reais. A grana da viagem cobriu a primeira internação, desfalcando as contas em casa - a parada em Sampa tinha como objetivo exatamente esse, as despesas da sobrevivência, com a matéria prima pro trabalho. Mas agora o preço ficou acima das condições e, como é comum, sem dinheiro pro tratamento a pessoa morre na estrutura social em que vivemos.
 Ela servia de transporte e de base pra exposição, sempre que necessário. Dentro, tudo o que precisamos em viagem. inclusive dormir dentro, nos postos, praças e esquinas da vida. As fotos são da exposição na palestra da Concha Acústica, UFSC, semana passada, antes do primeiro baque no motor da kombi, quando subíamos a serra pra Curitibanos, onde a palestra foi cancelada. Então deixamos Celestina internada em Floripa e fomos cumprir os compromissos, em Guaporé, Cachoeirinha e Porto Alegre. Na volta vimos o conserto sendo adiado pra sexta, sábado e domingo, quando finalmente saímos com ela. Mas ainda vazava óleo. Voltamos ao mecânico na segunda, ele garantiu a viagem, era só não deixar faltar óleo no motor, apesar do vazamento. Como não queríamos nem podíamos adiar mais a volta, a solução foi essa. Ali eu já tava vendo que não ia dar em conserto de verdade.

Bueno, dez litros de óleo mais tarde, já chegando em Sampa, depois da serra do café, mais exatamente no posto 65, em Juquitiba, a 40 km do anel rodoviário, na Régis Bitencourt, o motor bateu seco, menos de cem km depois do último litro posto. Ataque cardíaco, parou geral tudo.

Agora busco sem saber bem se um bloco de motor novo, sem ter toda a grana - eu daria um sinal e iria expor o que desse em Sampa, sem os painéis e outras coisas, mas com os desenhos, pra ver se levantaria essa grana. São quatro paus pra "fazer" o motor, sem contar o trabalho de tirar e instalar. Ou, talvez, mil pra comprar um bloco novo, mais quinhentos pro serviço. Não saí ainda atrás, Juquitiba é pequeno, talvez precise guinchar pra Sampa - não conheço mecânicos em Sampa, muito menos que tratem de kombis e sejam honestos e competentes. Aí apelo pros amigos em São Paulo. Estou com pouco tempo e a possibilidade de vender pra ir embora é uma das pensadas.

Uma pena. Mas não se pode ter apego às coisas, elas vêm e vão. Quando fazemos tudo o que podemos e ainda assim não dá certo, é preciso abrir a mão, largar e seguir adiante. Temos tudo o que precisamos, respiramos saudáveis, pelo menos ainda, e diante das perdas é preciso não piorar as coisas com sentimentos depressivos.

  Celestina já dura quase dois anos. Foram em torno de cinqüenta mil quilômetros rodados, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia passaram sob as rodas da kombi. Muitos amigos andaram nela conosco, muita gente cruzou os caminhos. História já tem, agora veremos o que rola.
A palestra foi até de noite, Celestina ao fundo apóia os painéis.

Ainda de dia, a exposição na UFSC.
Estamos arrumando um guincho pra levar pra Sampa, lá vemos se arrumamos um mecânico bom ou um comprador nem tanto, que compradores que aparecem no sufoco a gente já sabe como são.

Como segue a saga, também tô curioso. Mas se ficar sem nada já foi superado várias vezes, ficar sem kombi não será pior, nem mais difícil. Torno a carregar o que puder na mochila, se for preciso. E a vida caminha.
Celestina recolhida, depois do primeiro ataque cardíaco.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Internação de emergência

Na serra da Pedra Selada, caminho de Visconde de Mauá.

Voltando de Mauá, ontem, percebi o vazamento de óleo. Segui viagem até que a luz acendeu no painel na descida da serra. Parei na Capelinha, verifiquei a vareta, tava de assustar, só um meladinho do óleo na ponta. Uma hora depois apareceu o óleo necessário, muito mais caro que o normal, claro.

Fomos pela Dutra até perceber a fumaça branca pelo retrovisor. A coisa tava pior que eu esperava, bem que seu Manoel Elias me avisou, mas o serviço era pesado e caro, fui adiando até dar nisso. Gastamos cinco litros de óleo pra chegar em casa, já com a luzinha acesa de novo. Pelo caminho, ficou um fio de óleo marcando a rota, de Mauá até minha casa. O drama tava percebido.

Hoje levei ao médico, não dava pra resolver no ambulatório, decretada a internação. Ela fica lá até segunda de tarde. Vão ter que tirar o motor e trabalhar dentro do carter. Torre, retentores, flautas, tudo vai ser revisado, aproveitando que a cirurgia é complexa e profunda. Neste fim de semana, vou pra Santa Teresa de ônis. Pelo menos posso tomar umas cervejas por lá, não existe a assombração do bafômetro. Pena que não posso levar os ímãs.

Há pouco mais de um ano e meio não havia kombi, era tudo nas costas ou na bicicleta. Com os limites que isso acarreta. Na Celestina carrego muito mais e ainda não consegui chegar perto de completar sua capacidade. Mesmo assim, ela já faz parte da história. E das histórias.

No sul da Bahia, a caminho de Brumado, onde a promessa de ressarcimento das despesas não foi cumprida.

Em Barra Longa, caminho interrompido pelo veneno químico da samarco, na verdade vale, na tragédia planetária da maior bacia hidrográfica do sudeste. Que a mídia, hoje,minimiza chamando de "tragédia de Mariana", criminosa que é. O tempo já está trazendo as conseqüências, que estão só começando. Aí tem desgraça pra mais de século.

Ainda coletando dados sobre a calamidade ambiental, no caso aí próximo à foz, em Regência.

Em meio aos caminhões, Celestina dorme nos postos, sem se intimidar. Toda suja do barro tóxico, sinais de guerreira. Como Maria Clara, ela é pequena perto das carretas, mas destemida, valente, disposta. E não se intimida.

Celestina dá "pezinho" pro Kenny tirar fotos do crime das mineradoras.

Saindo de Ouro Preto na noite, ela não pôde subir até a casa de Douglas, que nos abrigava. Ficou num largo do caminho, mas tava em casa, antiguidade na antiguidade.

Em Porto Alegre, no Sarandi, a turma do Conceito Arte dá uma força no banho.

Pepe fotografa por trás, sem perceber seu próprio reflexo.

Já limpa, ela descansa das jornadas, na porta da casa que nos recebeu por uns dias.

Florianópolis, Monte Verde, em frente à casa que nos abrigou por lá em várias viagens, hospitalidade de Thiago Silveira.

Em Minas, uma parada pra mostrar em que direção nós viajamos pela vida.
Essa garibada vai preparar o motor pra viagem de setembro, ao sul, já com várias conversas marcadas, em várias exposições. Sinto que essa vai ser uma das melhores viagens, a melhor da Celestina. Vamos em cinco, ao que parece. Satya, Ravi, Roque, Maria Clara e eu. Vai caixa de som, guitarra e cajón (carrón).

Oremos pela saúde da Celestina.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O documentário

O documentário
Desde que Júnior me procurou na intenção desse filme, muita água passou debaixo da ponte. A viagem das cenas foi uma entre outras, durante o trabalho. Aliás, um trabalho muito mais do Júnior mesmo, que ficou picotando cenas e sons pelas madrugadas, fora dos seus expedientes de serviços. O trabalho externo, de captação das cenas, foi a parte fácil do trampo. As internas, o bordado, os cortes, as emendas, as combinações de som e imagem, imagino que devem ser muito mais cansativas, mentalmente.
Numa outra viagem de Kombi, neste período, estive em Santos, conversando no Monte Serrat, favela bela, organizada e solidária. Daí fui a Curitiba, três palestras em três dias, a primeira entre evangélicos diferentes, sem problemas em beber e fumar e viverem sem julgar ou discriminar, a segunda na casa Ocitocina, depois no OcupaMinc. Então fui a Floripa, uma palestra num evento vegano. A volta foi com problemas no motor, à noite, subindo serras, o que levou a vários contatos nos postos, com mecânicos, frentistas, muita conversa, cheguei a ler textos pra grupos interessados, cenas ótimas. Gostaria muito e insisti pra eles irem, mas não deu. A falta do tal financiamento pesou e tanto Júnior quanto Igor não puderam ir, tinham atividades programadas na manutenção da vida.
As possibilidades são precárias quando se está por conta própria. O que não impediu fazer o que está aí. O serviço de preparação das imagens e dos sons, incompreensível pra mim, tomou noites de Júnior. Ele até recebeu ofertas de participação, mas nada levado à prática, como é comum. Querer é mole, fazer já é bem mais raro.
Haveria mais viagens na fita, mais sotaques, mais interpelações e assuntos, mais conversas, mais oportunidades de coletar cenas que acontecem nessas movimentações, se houvesse grana aplicada no trampo. Mas sempre gostei mesmo é da capacidade de realizar assim mesmo, sem as condições ideais, com mais foco no conteúdo que na forma – que afinal, na minha opinião, é a parte mais importante. A peça está pronta e foi feita com o que tínhamos, com o que foi possível.
Acho que tem um ótimo meiquinhofe estocado com os caras (), cabe cobrar deles colocar isso aí no ar, tem muita coisa. Foram muitas as cenas gravadas e fotografadas durante as movimentações. O que foi publicado é pouco perto do que tem. Sei que esquentei a batata e agora jogo no colo do Júnior SQL. Mas é o trampo dele, vale pra ele principalmente. O Igor vai no reboque, mas na responsa.

Todo proveito merece a nossa gratidão, é o reconhecimento de que a gente precisa. O proveito levado à prática é direito e responsabilidade de cada um, na permanente mutação de que todos participamos, reconhecendo ou não, sabendo ou não, atentos ou distraídos. Escolhendo como fomos programados, em geral, raramente por conta própria, raramente vendo o mundo com os próprios olhos. Houve sempre quem retirasse as lentes impostas e visse com os próprios olhos, raríssimos. Creio que na atualidade há um processo crescente de retirada dessas lentes, de questionamento dos valores e comportamentos, dos poderes sociais, no modelo de vida que vivemos. Em forma embrionária, formam-se núcleos e coletivos em todas as partes, pouco a pouco, um processo permanente de mutação, tempo de gerações muitas. Não se pode esperar viver num mundo justo e solidário, seria ingênuo e perigoso, muitas “desistências” se dão a partir daí. Mas (e aí só posso falar por mim) se eu não viver no sentido de um mundo como o que desejo, não aplicar minhas energias nessa direção, não vejo muito sentido na minha vida. E a maneira que encontrei, ou escolhi, é refletindo e causando reflexão, sentindo e provocando sentimentos, questionando valores e padrões, relações e comportamentos, como parte de um processo estendido a todas as áreas das sociedades, a todo o planeta, ao universo. Mas aqui, de forma humilde, à minha volta, onde posso tocar e conviver, o primeiro plano em primeiro em lugar, ainda que não se esqueça os planos ao infinito, levados em conta como objetivos finais em todas as relações em torno, as que nos tocam. 


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Eduardo - 2014

Rafael Lage esteve em minha casa, dois anos atrás, enquanto fazia o filme Malucos de BR, levando em conta os muitos anos que andei pelas estradas, em quase todas as regiões do Brasil. Quando tive filhos, tive que intercalar moradias e deslocamentos. Sempre que deparava com a bifurcação pagar aluguel e contas ou manter a alimentação saudável, entregava a casa e saía pra estrada, às vezes pras ruas, onde, por não ter despesas de moradia, a grana era suficiente pra comer natural, saudável, e manter a saúde - o sistema público sempre foi apavorante, um sistema de doenças, precário, criminoso e desumano. A visão de mundo que se formou nessas vivências é clara e simples.



A segunda parte taí...


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Arte e pensamento em movimento - ou "bora pra estrada"

Hora de dar um tempo. Exponho em Santa Teresa desde o século passado, morei um ano no bairro e pulei pra outra santa, em Niterói, Santa Rosa, pra morar. Mas continuei expondo no Largo do Guimarães, primeiro no armazém fechado, nas três portas frontais. Depois, quando ali abriu um bar, passei pra parede do cinema. Mas venho sentindo vontade de mudança, um clima foi se instalando aos poucos, derrubando a sintonia com o lugar. Depois do desastre do bonde, onde morreram sete pessoas e dezenas se feriram, o bairro pareceu entrar em dormência. As falcatruas por trás das ações do estado e de empresas interessadas podem ser sentidas no ar, nos procedimentos, uma sociedade cujos poderes públicos são na prática privatizados e a hipocrisia é o lugar comum no trato com a população. Alguns anos sem bonde, agora um bonde esquisito, modernoso, descaracterizado como o patrimônio histórico que era, circula em silêncio pelos trilhos, até o Guimarães. Antes era do bairro todo, agora é só pra turistas. Eram duas linhas, agora é meia.
Encaramos a quebradeira no bairro todo, pra instalação dos novos e falsos bondes.

Durante as obras, Santa Teresa sofria na alma, os interesses de poucos emanava no ar.
Depois da “restauração” que tornou possível a circulação das pessoas, não era mais a mesma coisa, a forma tinha suplantado o conteúdo e os acontecimentos sinalizavam essa queda no astral do lugar. Começaram a aparecer figuras de outras vibrações pra expor, fisionomias agressivas ou hipócritas, sorrisos falsos ou alusões ameaçadoras, o climinha convencional da cultura social vigente, de competição e confronto, de interesses materiais e hipocrisias. Tempo de trocar o lugar, sem mágoas nem rancores, apenas sinais. Não me arrogo a posição do julgamento, da condenação, cada um carrega seu clima e suas conseqüências. A mim cabe escolher minhas atitudes e a mudança é uma necessidade permanente. No caso, mudança de lugar. Nada definitivo, mas o impulso deve dar a direção a seguir, na seqüência.
Em Rio Casca, dormindo em posto de caminhoneiros.
Surge, então, a oportunidade de realizar a idéia que vem madurando com o tempo e com a entrada de Celestina, a Kombi, na história. Há um ano e meio, ela vem sendo preparada pra ser engolidora de estradas. Desde então, quarenta mil quilômetros foram rodados, em viagens longas ao sul e ao norte, percorrendo o vale do rio Doce pra recolher informações e histórias desta hecatombe planetária que, todo o tempo, foi minimizada pelas empresas, pelo poder “público” e pela mídia dominante.
Chegando em Regência, a ver a bagaceira mineradora que matou o rio Doce desembocando no mar.
No parque estadual do rio Doce, a morte passa lentamente.
Saindo de Ouro Preto.
Sarandi, em Porto Alegre.
Pelas montanhas de Minas, rumo à Liberdade.
Exposição em Vitória, na Gruta da Onça.
Exposição na avenida Paulista.
Em Ouro Preto.
Maringá Rio, em Visconde de Mauá.
Cachoeira de São Félix, na Bahia. Homocinética quebrada.
Expondo na Bahia.
De novo na Paulista, encontros.
Na praça Roosevelt, a convite do Slam Resistência.
Em Santiago, no oeste gaúcho.

A idéia agora é sair pra expor nas cidades próximas, num raio inicial de duzentos quilômetros. E, pelo jeito, vamos em comboio, várias pessoas expondo suas artes. Se for o caso, proseando em público – ou palestrando, como dizem –, aproveitando a exposição e se rolar receptividade pra isso. Em qualquer lugar nesse raio onde se manifestar interesse e houver possibilidade de vendas pra bancar as atividades, é possível se fazer. Esperamos convites, pra chegar bem chegado e não ter problemas com os poderes municipais – como todo poder dito “público”, ávidos por “autorizações” e taxas, no vício de arrancar dinheiro da gente, sem contrapartida com o cumprimento nem da própria constituição. Um poder público que não merece nem o próprio nome, sempre aplicado ao atendimento dos interesses de poucos, os financiadores de campanhas eleitorais, e em enganar a população. Não pagaremos pra expor, nem ganhamos o suficiente pra isso, pois nos aplicamos em pagar as próprias contas, com dificuldade mas com persistência pra não se render aos valores e comportamentos vigorantes nesta sociedade criminosa, que abandona e sabota grande parte das pessoas – a miséria, a exploração, a ignorância, a desinformação são crimes sociais tão cotidianos que estão absurdamente naturalizados, quando ninguém devia se conformar com isso. Assim como ninguém deveria se conformar com uma vida sem sentido que gira em torno do consumo e da posse material, valorizando o desenvolvimento tecnológico, mas não o desenvolvimento moral pra tratar com ele, o que dá origem à escandalosa concentração de renda e propriedade e à conseqüente carência, criminalidade e violência. A violência do Estado é a mãe de todas as violências. E a vida imposta é a origem maior das frustrações existenciais. Essa é a base do meu trabalho. Escrito, desenhado e falado.

Esperamos contatos pra nos apresentar, levando em conta a necessidade de vender nossas artes pra seguir adiante – entre nós, ninguém tem outra fonte de renda senão a rua com as exposições.

No próximo fim de semana estarei na Bahia, palestra em Feira de Santana. Na volta, devo escolher um lugar pra expor, por perto do Rio, em conjunto com os amigos que vão também. Se houver interesse em alguma cidade dentro desse raio, espero a manifestação pra trocar idéias a respeito e, se possível, comparecer. Além de idéias, temos artes.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Barragem no "canal da aracruz" filtra os rejeitos da mineração

Em fevereiro eu estava dando continuidade ao acompanhamento da situação no vale do rio Doce, iniciado por Mariana e descendo até Baixo Guandu, num passo a passo de histórias e imagens ao longo do rastro de destruição e morte deixado pela passagem da tsunami de rejeitos da mineração, em dezembro. Em fevereiro parti pra Regência, pelo litoral norte do Espírito Santo, a fim de subir o rio até Baixo Guandu e fechar o ciclo.
Tronco submerso, ainda marcado pela cor da lama de rejeitos. 
No caminho, passamos por duas aldeias indígenas - Guarani e Tupiniquim - e por um acampamento do MST, onde paramos pra um papo. Tomando um café numa das barracas de lona preta, fiquei sabendo que não eram lavradores ali, mas pescadores pobres, que viviam com suas famílias da pesca pequena, num canal aberto pela Aracruz Celulose, anos atrás, para levar água do rio Doce à fábrica de celulose, já que o rio Riacho não tinha água suficiente. Uma transposição que não foi noticiada pela mídia, ao que me parece, apesar de ter havido movimentos de protesto, em geral inúteis quando se trata de interesses mega-empresariais - invariavelmente financiadores de campanhas eleitorais e, por isso, com forte poder de pressão sobre parlamentos, prefeituras e governos. O canal acabou enchendo de peixes e as famílias se instalaram ali pela necessidade de sobrevivência, até que a onda dos rejeitos barrentos desceu pelo rio e entrou no canal, matando todos os peixes. Sem ter como sobreviver, as famílias se reuniram nesse acampamento, enquanto o jurídico do MST tratava de conseguir indenizações e condições de sobrevivência da mineradora.
O pessoal do acampamento.
Eles disseram que depois de uns dias, a água começou a clarear até ficar transparente de novo. A lama da Samarco danificaria as máquinas da fábrica, então deu-se um jeito de limpar. De que maneira, eles não sabiam. Fotografei o canal.
O canal da Aracruz Celulose, hoje Fibria.

Depois de Regência, seguimos na busca da entrada desse canal, no rio Doce. Passamos por fazendas de cacau e por poços de petróleo do tipo martelo, erramos, mas acabamos chegando. O nome dado pela empresa foi "canal Caboclo Bernardo, um herói da região, mas a população local não o conhece por esse nome, mas por "canal da aracruz.
Não pude fotografar o filtro e o início do canal, a segurança não deixou, mas peguei umas imagens do lado de fora, inclusive dois canos que retornavam do filtro-barragem, devolvendo os resíduos retirados da água ao rio Doce. Não me conformava com a filtragem da água aplicada às necessidades das máquinas de esmagar madeira pra fazer celulose, enquanto todas as cidades ao longo do rio sofriam com morte de tudo o que vivia no rio. A tecnologia de filtragem existe e não estava sendo usada para os milhões de habitantes do vale, mas pras máquinas a filtragem aconteceu em menos de um mês. Pro poder mega-empresarial, acima dos poderes públicos, o lucro vale mais que a vida, as máquinas valem mais que as pessoas.

Depois, em Linhares, procurei uma alternativa pra voltar lá. Um drone. Voltamos na madrugada da quarta-feira de cinzas e, quando amanheceu o dia, o drone fez o serviço.Escaldados com a truculência da segurança da Samarco, que nos abordou em Bento Rodrigues de tal maneira que tivemos que armar uma fuga improvisada - eu fiquei de isca enquanto Rafael e Kenny saíam do local com as fotos e filmagens -, saímos da área voando na kombi, por estradinhas que passavam dentro das fazendas, de volta a Linhares. Nada aconteceu, então.

Andei com essa filmagem, sem conseguir editar, por um tempo, já que não tinha grana, não sei fazer edição nesse nível e o que consegui não estava satisfazendo. A amiga Paula Thebas levou pra Sampa e Wagner Pacífico fez o serviço. O resultado taí.

Trata-se da limpeza dos resíduos da mineração que assassinaram a vida do rio Doce e estragaram a vida de milhões de pessoas. Há solução plausível, mas só se aplicou nos interesses empresariais. O povo, ora o povo... numa ditadura banqueiro-mega-empresarial, o povo tá claramente em segundo plano. Os lucros e o patrimônio valem mais do que a vida.

https://youtu.be/ctC758ikEGc

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Inchou e desinchou

Mês passado eu estava em casa de Brisa, Alice e Olívia, por uns poucos dias. Tratava de umas bolhas nas mãos, surgidas depois de movimentar uns caixotes empoeirados e esquecidos num depósito, certamente por alguma substância nociva deixada pela passagem de algum bicho que não pude saber. Restava uma feridinha ressecada, eu sem nada pra passar em cima. Só havia óleo de copaíba na casa, um poderoso cicatrizante e anti-inflamatório que eu já havia usado com sucesso mais de vinte anos atrás, numa ferida séria, com sucesso. Em 2011 usei novamente, mas percebi uma reação adversa, uma urticária que me levou a suspeitar que meu corpo não tava se dando bem com o óleo. Mas o tempo passou e eu resolvi usar a copaíba, porque o óleo amaciaria o ressecamento, como de imediato foi a sensação.

Então desci pra Resende, tinha a regulagem do motor pra ser feito. Seu Manoel Elias gosta de pegar o motor frio, por isso deixo a kombi na oficina à noite e ele faz o serviço de manhã. Pensei em dormir nela, mas teria que ficar preso na oficina trancada desde as seis da tarde. Então deixei lá e fui tomar uma cerveja, levando os desenhos e livrinhos pra eventuais vendas. Abri o computador, declarei minha situação e tentei arrumar um lugar pra dormir por ali. Não recebi resposta até a quarta cerveja, fechei o computador e caminhei na direção da oficina, junto à via Dutra - pensava mesmo em dormir na beira da rodovia, mas passando pela esquina da oficina lembrei que ali a estrada era urbana, não tinha a segurança do isolamento. E resolvi ficar ali na esquina, na calçada, próximo a um treiler de lanches que tava aberto na madrugada.

Deitei e ali comecei a sentir a cara inchada. De princípio não liguei, mas a sensação aumentava. Sem espelho, tirei fotos pra ver como tava. Inchada ainda só um pouco, não entendi o que acontecia, a princípio.


De manhã seu Manoel me viu entrar na oficina, "bom dia, seu Manel Elias", respondeu e ficou me olhando de um jeito que seria estranho, se eu não soubesse que minha cara tava inchada. "Tá inchada, né..." "O que aconteceu?", ele perguntou. "Não sei, inchou durante a noite, mas tá tranquilo, não dói." Ele riu, "isso é estresse, tu anda esquentando muito a cabeça, esse negócio de pensar demais..." Eu ri, também. "se fosse isso eu vivia de cara inchada".

Passamos à regulagem das válvulas, eu tentando aprender alguma coisa, não dava pra deitar debaixo do carro por causa da pressão na cabeça, mas fiquei abaixado olhando tudo. Quando terminou, embarquei rumo ao Rio, esperando que o inchaço não me impedisse de dirigir. Correu tudo certo, cheguei em casa assustando o Pepe, "que es eso, compadre?" "Sei lá, parceiro, tô achando que é reação a um óleo de copaíba que usei ontem."

Foi chegar em casa e a coisa desandou, o inchaço quase que fechou meus olhos. Se estivesse na estrada, teria dificuldade em enxergar o caminho. Pelo rádio ouvi um acidente acontecido na Dutra, minutos depois de eu ter passado na baixada, que parou a estrada. Quatro horas com a via parada, se eu demorasse alguns minutos a mais teria ficado lá, preso no congestionamento. Senti que fui protegido, deu um calafrio pensar que eu podia ter caído nas mãos do sistema de saúde pública, um risco enorme de morte. Aí a cara já tava toda inchada, o corpo tava pesado, comi alhos e tomei gengibre. Parou de inchar mas ficou inchado.


Apelei prum anti-histamínico de farmácia, sem condições de procurar alternativas, por ignorância e incapacidade de movimentação. E a coisa começou a reverter. Pouco a pouco voltei ao tamanho normal, carregando a pele grossa na cara e nas mãos. A sensação de que a pele tava morta se confirmou no descascamento que se seguiu.




Agora passou, estou ainda assimilando o recado espiritual, ou a advertência. É parte do trabalho interno estabelecer a comunicação entre as dimensões a que temos acesso, além da física. Esse contato é permanente, embora pra esmagadora maioria, inconsciente. Não pretendo a plena consciência, mas já não aceito a total inconsciência.

Segue a vida. Tenho até dia 25 pra preparar a viagem ao sul, começando por Sampa e até Porto Alegra, parando em Floripa e, talvez, Curitiba.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Os tempos vão passando... acontecimentos não páram.

Virá o tempo em que será vergonhoso se ter mais do que se precisa. O dia em que será constrangedor colaborar com a opressão, venha de onde vier. Um dia em que moral será referência, estar bem com a própria consciência será uma exigência pessoal e geral, independente da opinião alheia - que será bem outra, certamente. Um dia em que a harmonia social será a prioridade do poder então público de verdade, não haverá a possibilidade de um ser humano passar fome ou abandono, um dia em que os animais serão percebidos como nossos irmãos menores e, portanto, dignos dos nossos maiores cuidados. Esse tempo virá. E estamos trabalhando pra isso, exceções às regras, grupos embrionários, que buscam em si mesmos e em suas consciências o respaldo pras suas ações, sempre criminalizadas e perseguidas pelas instituições do poder vigente.

Esse dia virá. E qualquer um poderá se incomodar quando e se vir um ser humano em situação de carência, seja qual for. Se incomodar e acionar a sociedade, que estará pronta a cumprir sua função, atender as necessidades básicas de todos. Estamos ainda primitivos. Quem quiser pode sentar e chorar, os que me interessam são os que partem pra atividade, dão seu jeito, criam, inventam, fazem o que querem fazer, ainda que a sociedade não lhes dê condições. Esses eu admiro, ainda mais se levam na alma a inconformação com o sistema como ele é, se não se afastam do trabalho de construção de uma sociedade mais e mais humana.

Tenho visto, diante dos últimos acontecimentos falsamente chamados de políticos, muita gente decepcionada, estarrecida, surpresa, espantada, indignada diante dos procedimentos dos chamados poderes públicos - que de públicos só trazem o nome. E me pergunto, onde uma gente tão esclarecida, estudada, acadêmica, instruída se informa, onde eles põem os olhos que não percebem que toda a institucionalidade está tomada, infiltrada, dominada por essas elitezinhas parasitas? Fixados numa pretensa "ditadura militar", não percebem que a ditadura é banqueiro-mega-empresarial, que existe desde a proclamação da república, aliás proclamada por essa mesma ditadura, sequiosa de usufruir os privilégios dos "nobres" da monarquia, sem tem o tal sangue azul, sem pedigri.

Cadê a academia que não tem um mísero estudo sobre as causas da pobreza, da miséria, da ignorância endêmica em nossa sociedade, quando há tecnologia, produção e logística pra atender a todas as necessidades de todos os brasileiros? Onde tá a porra da "inteligentzia" nacional, que não aponta as causas, facilmente resolvíveis, das abjeções sociais? Essa barbárie só existe porque está planejada e faz parte do modo de dominação sobre a estrutura social. Não interessa a esses um povo instruído. Ao contário, é preciso manter a ignorância. É só olhar em volta pra perceber que foram muito bem sucedidos. A academia, comprada pelas parcerias empresariais, não tem como estudar e denunciar os crimes dos seus parceiros e patrocinadores.

A mesma sociedade que permite a ação de publicitários e marqueteiros que usam psicologia do inconsciente, os mais profundos estudos sobre o comportamento humano, produzindo desejos compulsivos de consumo sobre toda a população, nega condições de consumo pra sua esmagadora maioria. Desejos são competentemente implantados no inconsciente coletivo, com o foco em marcas como valor social e pessoal, enquanto se nega a capacidade de consumir essas coisas no geral, pra todo mundo. É um convite ao crime. Milhões de famílias são expostas e esta situação, só por ter uma televisão em casa. Os mesmos milhões que fazem os serviços mais básicos e necessários de toda a sociedade. É de se esperar a criminalidade disso decorrente, impossível não haver os que se revoltam, são injustiças demais e cotidianas.

Pra se formarem privilégios, digo isso há trinta anos, é preciso eliminar direitos. É o que acontece em nossa sociedade. As instituições, os governos, os sistemas legislativos, câmaras de vereadores, de deputados estaduais, câmara de deputados federais e senadores, os ministérios e autarquias, tudo está infestado do poder banqueiro-mega-empresarial, tudo rola conforme suas determinações. A ignorância há de ser mantida, via sabotagem do ensino público, a informação há de ser controlada, via mídia privada - globo à frente - e se pode conduzir o povo e sua opinião com a televisão, com a publicidade, com o jogo de cena. E o povo será o fudido de sempre, como tem sido.

Há furos no controle da informação, os de baixo se informam, percebem que são o alicerce desta sociedade que os oprime, pouco a pouco, muito mais lento do que se gostaria. Mas o processo tem seu ritmo. E eu nunca vi tanta entidade nascida em periferia, funcionando, canalizando, resgatando, em toda parte.  É novidade, em muitos anos de periferia, desde a década de oitenta, onde encontrava revolta, criatividade, solidariedade na contravenção, por inimizade ao Estado e à sociedade. Era uma coisa intuitiva. Hoje vejo uma consciência como nunca antes havia visto. Não só no surgimento de tantos movimentos periféricos, fundamental no processo, mas na percepção de um domínio de poucos sobre o todo, de um condicionamento, uma estratégia de controle e indução da maioria.

Os que vêem têm sua responsa. Cada um na sua área, que seja. Mas no fundo é a mesma área, o trabalho na evolução humana, neste tempo mínimo em que vivemos. Somos todos um, o mais adiantado não está tão longe assim do mais atrasado. Afinal, estamos no mesmo grupo humano, no mesmo grupo planetário de seres, vivos e minerais.

Tá acima do nosso entendimento, é preciso reconhecer.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

A casa da traição

Tudo o que é público está ameaçado de piorar mais, muito mais do que já é ruim. Vão privatizar muitíssimas coisas e vai ser preciso pagar pra ter alguma dignidade respeitada.
Tava oiano aqui essa bosta na câmara. Uma confusão dos diabos, um gritagrita, empurrempurra que não deixa nada nem ninguém se entender. Atrás do plenário aparece a faixa fora cunha, a sessão pára em gritos, o próprio cunha preside a fanfarronice, manda tirar faixas "de qualquer tipo" do plenário.
O processo não tem lógica nem base, não tem argumentos nem provas. Não resistiria a um debate calmo, sereno e lúcido, onde se pudesse limpar das interferências e ver a realidade como ela se apresenta. Aí eu pergunto: a quem interessa a bagunça, o tumulto, o gritagrita e empurrempurra? Óbvio. Quem levantou a faixa, foi os de esquerda? Burrice? Ou falsa bandeira, na intenção de tumultuar pra não esclarecer? Tô entendendo não. Ou tô entendendo demais.

A casa da traição cumpre o seu papel. Nada de se espantar. No cenário que vejo, os movimentos sociais, as organizações das vítimas de crimes sociais, espalhadas entre milhões e milhões de sabotados, roubados em seus direitos, sabem muito bem quem são esses que ameaçam ocupar as instituições do Estado, e se preparam pra levantar uma muralha de resistência. Aqueles que há pouco tempo conheceram o respeito a alguns dos seus direitos, que viram filhos entrarem em universidades antes vedadas, não creio que assistam inertes a retirada desses direitos, agora tão sagrados, tão valorizados. Aguardo pra ver a seqüência. A institucionalidade é uma área, há muitas outras áreas a serem trabalhadas, todas interligadas. Cada um que ande nas suas, de sua escolha e sintonia, embora eventualmente precisemos circular em qualquer uma.
Nunca apoiei esse governo, nunca gostei desse governo, nem reconheço qualquer governo, em um Estado que viola sua constituição em seus artigos mais importantes, que garantem a dignidade e espaço social pro exercício pleno da vida, para todos os que queiram, sem nenhuma exceção. Mas daí a aprovar esse movimento, todo baseado em mentiras, distorções, interesses, envolvendo parlamentares pendurados em processos judiciais por malabarismos jurídicos que são fartos neste sistema, a distância enorme. Salvo algum improvável ingênuo ou totalmente equivocado, são bandidos armando um golpe institucional pra abolir leis incômodas, e abrir as portas ao saque, à revelia da população. A ameaça que está representada nas figuras de proa desse movimento impitimador inclui pré-sal, privatização do que resta público até onde possa dar lucro, dizimação de direitos trabalhistas e de programas sociais de migalhas, que ficam longe das obrigações constitucionais do Estado. Só bagaço que vem por aí, se essa porra for adiante. A começar pelos conflitos da resistência de quem tem os direitos ameaçados, se unindo e dando seu jeito. O Estado está por se declarar inimigo. Mesmo já o sendo há muito tempo. Agora a parada vai recrudescer, as migalhas serão retiradas. Se já deram os frutos, não será fácil.

sábado, 16 de abril de 2016

Amanhã se arrisca mais um governo latinoamericano - uma presidente sem nenhuma pendência judicial é julgada por quarenta ladrões juramentados cujos processos estão pendentes em malabarismos jurídicos.

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Aproveitando minha incapacidade momentânea de sair à rua, desenrolo aqui uma série de reflexões a respeito do que acontece, no momento, em nossa sociedade brasileira. Ligando os acontecimentos aos do mundo, como parte da geopolítica imposta pelos poderes corporativos planetários, através de todos os meios, diplomáticos, econômico-financeiros, culturais, interferindo brutalmente nas políticas nacionais. Onde não funcionam os meios subterrâneos, ocultos, entra a força militar das armas, descarada, sob os mais variados pretextos, com um único ponto em comum: são todos mentirosos ou, no mínimo, distorcedores da verdade.

Não se trata de "defender a democracia", porque não há democracia neste país, mas uma ditadura da grana, explícita, que domina todas as instâncias ditas democráticas. Trata-se de defender o processo social em curso, insipiente, que não tem no governo a iniciativa, mas a anuência aos pequenos avanços da maioria mais pobre no sentido de começar a participar dos processos, a alcançar algum nível de instrução e informação, a formar seus coletivos, ainda exceções às regras, nas comunicações, nas informações, na percepção da sua importância na estrutura da sociedade.

Toda vez que um governo freia a ganância dos mega-parasitas – mega bancos e empresas transnacionais –, ele passa a ser maldito, difamado e atacado pela mídia. E as oposições internas, sejam lícitas ou ilícitas, começam a receber incentivos, apoios e dinheiro pras suas atividades lícitas ou ilícitas, pelas vias política, jurídica, publicitária-midiática ou mesmo armada, pra desestabilizar tal governo e reinstalar outro, mais submisso ainda, fortalecendo as dragas que sugam as riquezas, os recursos, o patrimônio e as verbas públicas, com total desprezo pela miséria e sofrimento que se causam às populações.

É espantosa a semelhança das elites cooptadas pelos poderes imperiais do mundo – na América Latina isso é claríssimo. Como sua oposição em geral não tem substância real e se baseia na inconformação diante da elevação do padrão dos mais pobres – e conseqüente contenção da avidez dos mais ricos – a base dessa oposição é o ódio, a difamação, a violência, o descontrole emocional, a briga, onde a poeira se levanta pra esconder a realidade. O mesmo se vê em contendas individuais, onde quem não tem razão parte pro insulto vazio e busca o conflito pra que não se esclareça o assunto, parte pra agressão, não deixando espaço pro diálogo. Qualquer um que se disponha a conversar sobre esse impítiman falcatruesco, ainda que sem expor opinião contrária e apenas questionando as motivações reais, com qualquer dessas pessoas que querem expulsar o atual governo, vai encontrar impropérios, palavrões, raivas incontidas, acusações absurdas e sem provas, papagaíces midiáticas e nenhuma razão ponderada, com fundamento, que possa ser explicada com calma.

Existem razões palpáveis pra essa interferência nos países considerados subalternos pelos poderes econômicos mundiais que emanam das corporações estadunidenses e européias, acostumadas à exploração livre desses países, ao parasitismo nocivo aos povos, através do controle dos seus governos. O histórico de golpes militares na América Latina – todos os países latinoamericanos sofreram golpes militares planejados, induzidos e financiados diretamente pelos governos dos Estados Unidos (no caso do Brasil, o documentário feito pela TV Brasil - "O dia que durou 21 anos" -, com base nos documentos secretos que a lei estadunidense obriga a publicar depois de 40 anos, mostra toda a trama, o cenário montado em território nacional pelas agências de segurança, pelas filantropias de fachada, pelo treinamento e infiltração de mais de 30 mil agentes nos sindicatos e associações e culminando com o envio da 4ª Frota, armada pra guerra, com o objetivo de derrubar um presidente que investia na educação, no transporte, na organização popular, na erradicação do analfabetismo, na reforma agrária, ou seja, na população – sob a acusação falsa de que era um “comunista”, contando com a ignorância geral do povo).

Desde o princípio da invasão européia nestas terras habitadas, foram instaladas aqui elites dominantes a serviço das metrópoles – neste caso, Portugal e Inglaterra – que, ao longo dos séculos, vêm se mantendo e cumprindo sua função, com extremo desprezo pela população local, com submissão explícita às ordens e aos interesses externos, na manutenção dos seus privilégios sujos de sangue, na repressão permanente a qualquer tipo de revolta ou resistência, de reivindicação de direitos e de conscientização das camadas de base da população. Essas elites, fiéis aos exploradores e traidoras da nação e do povo, são as que se levantam hoje em fúria contra o governo do petê, engrossadas suas filas com a ignorância e o controle da opinião pública exercido pela mídia.

Não que esse governo mereça alguma contemplação. Esse partido - o petê - fez um expurgo interno a partir da campanha de 89 – a luta interna já havia – e conseguiu impor o coletivo chamado “articulação”, hoje “campo majoritário”, anulando sua índole socialista, popular, e pouco a pouco exterminando os processos que davam voz ao coletivo do partido, se aproximando cada vez mais dos procedimentos convencionais dos partidos na chamada “democracia burguesa”, termo absurdo e contraditório, pois se é burguesa não é democracia. Depois de várias eleições perdidas e do expurgo das forças internas mais democráticas – que não admitiam essas mudanças que acabavam com a força das bases partidárias – o petê já se assemelhava aos outros partidos e precisava se agarrar à sua história pra se diferenciar dos outros. Mas aqueles mais ativos na construção dessa história já estavam fora – se aglomerando em siglas partidárias sem penetração popular – restando as celebridades, os quadros de colunas flexíveis, que se submeteram aos poderes econômicos e suas exigências sociais – manutenção da miséria e da ignorância – sabotagem do ensino público e enquadramento do particular –, da concentração fundiária e industrial, da preponderância dos interesses banqueiro-mega-empresariais, e consequentemente da exploração, da destruição das garantias trabalhistas, da privatização do patrimônio público e na intocabilidade da concentração das comunicações em meia dúzia de famílias. Como acontece tantas vezes a nível individual, esse grupo partidário abriu mão da sua alma pela sua ânsia de chegar ao “poder”, na verdade o governo, gerente dos verdadeiros poderes – que comandam dos bastidores, onde não existem eleições.

Aqui entra a analogia dos capatazes. Na dualidade simplória imposta pela mídia, há governo e oposição, apenas e mais nada. Digamos dois capatazes pra gerenciar uma fazenda Brasil, tida como propriedade de quem nem vive em território nacional, apenas explora o mais que pode seus recursos, seu patrimônio e sua população. O petê, capataz eficiente que mantém o predomínio internacional sobre as riquezas da nação, é “benevolente” com os escravos da fazenda, o povo, e deixa cair migalhas a eles dos fartos banquetes dos poucos potentados. Daí a entrada de um punhado de pobres nas universidades, a ascensão ao consumo – mas não à instrução ou à informação – de parte da população mais pobre, do acesso à moradia de milhões de desabrigados, da criação de programas sociais mínimos que atendem parte das vítimas de crimes de Estado seculares contra sua própria constituição. De outro lado, a oposição rechaça esses programas. Este é o capataz sádico, pra quem o povo produz melhor debaixo de chicote, de pressão, sem o custo da alimentação que os engorda e amolece. Escravos devem ser tratados duramente, pra isso o aparato de segurança “pública” vem sendo preparado desde a segunda guerra mundial – época em que a dominação passou das mãos de uma Inglaterra destruída pros Estados Unidos, programado pra ser a próxima potência imperialista. Esta é a mentalidade das elites apoiadas e financiadas de fora. O pobre deve se conformar com sua inferioridade, acreditar na mentira da meritocracia e dar graças por ser explorado. Mantida na ignorância e na desinformação, a população deve sonhar com o impossível e servir a vida inteira numa expectativa falsa. Nas palavras de Darcy Ribeiro, “uma elite mesquinha, tacanha, escravista”, que tudo faz pra impedir o desenvolvimento da maioria, cheia de potencial, de criatividade, de capacidade de superação de dificuldades, em condições de ser um dos povos mais desenvolvidos do planeta, desde que não se impeça como se vem impedindo, atacando ferozmente todas as vozes que mostram as imensas possibilidades do povo brasileiro, todas as iniciativas de instrução e conscientização, de reivindicação de direitos básicos, fundamentais, humanos e constitucionais..

As migalhas atiradas aos mais pobres enfureceram as elites locais e amedrontaram as elites mundiais, numa combinação nefasta. A atitude do governo brasileiro de apoiar a união dos países latinoamericanos – um recurso para a contenção das ânsias dominadoras das corporações, criadoras de miséria, pobreza, ignorância e exploração, semelhantes em todos os países da América Latina –, a independência diplomática apenas esboçada, a defesa tímida de apenas parte do patrimônio público, como o petróleo, despertou os mecanismos de interferência internacionais. Já que os tempos não aconselham o uso direto da ocupação militar, os meios passaram a ser institucionais, a partir do estímulo, apoio e financiamento de oposições internas em seus países, os piores seres humanos, traidores de suas nações, entreguistas de seus países e seus povos em nome dos seus privilégios sujos. Apesar de eficiente na manutenção dos poderes vigentes, externos, corporativos, o governo brasileiro produz efeitos colaterais que não agradam, pois a médio e longo prazo tais migalhas são sementes de esclarecimento e conscientização – como já está acontecendo, ainda que de forma embrionária – e tornará cada vez mais difícil e trabalhoso o domínio tão pleno e desbragado como agora.

A meu ver, não se trata da “defesa da democracia” ou o “combate à corrupção”, pois não existe democracia a defender além da fachada, de um lado, e não é possível combater corrupção a partir das ações de grupos sabida e historicamente corruptos. Trata-se de impedir alguns poucos procedimentos governamentais que, ainda que mínimos, insuficientes, que passam longe de resgatar a dívida social do Estado, acabam criando condições pro esclarecimento, ainda que embrionário, da população, com seu conseqüente empoderamento na realidade política e social. Os situacionistas poderão brandir os números alcançados em atendimento aos pobres – e é verdade, pois desde a instalação dos militares no governo do país, nunca houve tantos programas estatais de atendimento à pobreza. Mas isto passa longe de colocar o Estado a serviço do povo como deve ser, prioridade máxima dada aos que mais precisam, às vítimas históricas, esmagadora maioria, da tirania elitista que sempre dominou.

Considerando a sabotagem permanente dos serviços públicos, principalmente a educação, a comunicação e a saúde, o que vemos ser chamado de política é, na verdade, uma grande farsa, encenações histriônicas diante de uma população ignorantizada, desinformada, deliberadamente incapacitada de compreender o que acontece, facilmente enganável com as articulações midiáticas que se utilizam dos mais profundos conhecimentos acadêmicos em psicologia do inconsciente, em condução de massas, em antropologia, sociologia, estatística, conhecimentos cooptados para o domínio de poucos sobre a sociedade. A meu ver, só é possível uma verdadeira política com um povo bem alimentado, instruído, informado, consciente dos mecanismos legais pro controle dos que se fazem seus “representantes”. Isso não é permitido e, se proposto, é atacado com todas as forças da difamação, com todo o ódio dos cooptados pelos exploradores de fora, mesmo no seu mais leve esboço, como é o caso.

Amanhã será o dia do confronto entre os servidores e admiradores incondicionais dos poderes corporativos mundiais e os servidores condicionais, que servem aos seus interesses com a ressalva de atirar migalhas à pobreza endêmica. Os interesses internacionais, os financiamentos, as estratégias semelhantes em vários países – no Paraguai, a derrubada de Fernando Lugo foi uma caricatura rápida do que está acontecendo no Brasil agora – não são mencionados nas falas e nos argumentos de ambos os lados, salvo leves referências inócuas e que, em geral, passam batido, sem que se perceba sua decisiva importância. Sem esse apoio, explicitado apenas na mídia construída e bancada de fora que se faz de brasileira mas constituída de funcionários dos poderes econômicos internacionais, as forças que exigem esse impítiman absurdo não seriam forças, seriam ridículas, sem nenhum sentido, como em verdade são, quando se faz uma observação profunda e isenta dos acontecimentos.

Os interesses corporativos internacionais ainda determinam, com irresistível força, a pauta nacional do que se chama de política, essa farsa suja, desumana, vazia de povo. A maioria dos que engrossam o coro da oposição, ignorantizados, idiotizados e teleguiados pela mídia, se tivesse instrução e consciência do que acontece, morreriam de vergonha. O campo da ignorância e da desinformação foi meticulosamente preparado durante os quarenta anos de serviço militar nos governos do país. Agora os dominantes fazem uso dos frutos que os traidores da pátria, conscientes ou inconscientes, plantaram em território nacional.

A movimentação já se faz em direção a Brasília. Se aproxima um momento decisivo. Um governo de merda, tatibitate, acovardado em assumir seus verdadeiros adversários, se bate contra os parlamentares e juristas paus-mandados de bancos e corporações internacionais, os ditadores do planeta, fonte de tanto sofrimento pelo mundo inteiro, os mesmos a quem se submete o petê. Os patrões estão tentando demitir um gerente que dá mole pros escravos, ainda que mantenha a exploração sobre eles. O perigo desse mole, já se vê, está vindo com o tempo. Os resultados que vejo me fazem crer que não há reversão na maneira cênica. Será preciso mais descaramento, mais tirania explícita, não haverá retorno sem resistência dos de baixo, que são quem apavora as elites. Não se imaginava o que a população seria capaz de fazer com essas migalhas, dividindo e multiplicando nas periferias, em meio à exploração desenfreada. Espero que seja tarde pra conseguirem reverter esse processo. E, se conseguirem derrubar esse governo, ainda que de merda, a reação irá convulsionar o país de norte a sul, de leste a oeste. E será, de qualquer maneira, mais um fator na conscientização geral. O processo é irreversível, embora os medos, as ameaças e as aparências.

Como dizia Einstein, uma mente que se abre a uma nova experiência, jamais retorna ao seu tamanho original. Se mentes suficientes foram abertas, não haverá reversão. E se houver, haverá uma resistência nunca vista.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Não gostaria de falar sobre isso.

Andam pedindo que eu faça uma análise da situação atual, com essas "manifestações" pelo território nacional. Tenho observado, confesso que de saco cheio, essas orquestrações que se pretendem - ou se anunciam mentirosamente - "políticas", mas que se desmoralizam nas propostas, nas palavras de ordem sem substância, cênicas e vazias de significado, além da exposição de ódio e alienação desses "milhões de pessoas". Esta movimentações a partir da mentalidade das elites locais em vários países da América Latina são muito semelhantes. Antes de tudo, ódio e agressividade, pra anular qualquer possibilidade de diálogo que obrigue a algum esclarecimento a respeito das reais intenções dessas movimentações promovidas pelas mídias infiltradas de interesses corporativos internacionais. O fato dos programas de domingo serem interrompidos durante toda a sua programação pra noticiar essa manifestação sem alma - ou com a alma do demônio - é bem sintomático, mostra os interesses banqueiro-empresariais - o motor da mídia comercial dominante - insuflando as elites, cooptando o sentimento de revolta dessas minorias privilegiadas, diante do aparecimento de pobres em locais antes reservados exclusivamente a essas minorias, como universidades e aeroportos. Há pouco tempo vimos uma dessas peruas da elite reclamar que não tem mais graça viajar à europa ou aos esteites, porque até o "seu" porteiro pode fazer isso. Mentalidade escravista, exploradora, anti-população.

O governo petista, partido que antes de chegar em tal patamar - durante a época dos militares e logo depois - era o refúgio de verdadeiros democratas, fez o seu auto-expurgo, conservando apenas os "moralmente flexíveis" e dando no que deu, perdendo sua alma e sua popularidade pra compor com o verdadeiro poder e se tornar o seu gerente. Estamos diante de uma luta de capatazes, ambos loucos pra ocupar o lugar de gerentes. Os patrões, donos da fazenda Brasil, nem moram na área - daí os capatazes fazerem pose de dono -, apesar de a explorarem com afinco e grandes lucros. Educação pública sabotada pra manter a ignorância, educação privada formando os supervisores e chefes da ignorância, comunicações dominadas pra distorcer a realidade, enganar o povo e formar mentalidades absurdamente superficiais, instituições públicas infiltradas por agentes do poder real pra conter qualquer ação na direção de uma democracia e o quadro está formado, dentro do predomínio econômico sobre a falsa política.

Há duas linhas de capatazes. Uma, benevolente e bonachona, não tem ódio dos escravos - nós, como povo - e, desde que se comportem, atiram migalhas a eles, como prêmio, incentivo a que continuem trabalhando sem reclamar. A outra é imbuída de um ódio e um desprezo incontrolável pelos escravos, que devem ser mantidos sob pressão, debaixo de chicote, comendo pouco pra não ficar mole, apanhando muito pra produzir ao máximo, sem qualquer chance de pensar ou agir fora do exigido.

A predominância da classe rica nessas "manifestações" demonstra a reação dos exploradores do trabalho assalariado às pequenas aberturas que permitiram a passagem de alguns pobres pra áreas onde, antes, pobres só entravam como serviçais. O ódio e o preconceito, além da superficialidade, da falsidade, da cenografia mambembe das propostas, foram a tônica dessa armação midiática que estimulou ao máximo a inconformação com a ascensão da classe pobre a patamares nunca dantes alcançados. As periferias se movimentam, resgatam auto-estima, percebem a sabotagem estatal ao seu desenvolvimento, reivindicam direitos constitucionais antes desconhecidos - e desrespeitados desde que se inventaram as constituições. Há informativos nas favelas, há movimentos organizados de esclarecimento e conscientização, o processo segue seu curso e os injustamente privilegiados estão em pânico, mortos de medo - e esse pavor é evidente no ódio visceral que se vê nesses ajuntamentos de carros caríssimos, de gente rica acostumada a explorar os pobres, que se sentem superiores como seres humanos, apesar de dependerem completamente do trabalho de quem desprezam.

 Observando a América Latina, vejo as manifestações dos ricos em toda parte, com incrível semelhança de propósitos e comportamentos. Não é difícil perceber a orquestração continental a partir das elites planetárias, com a costumeira ingerência no que consideram seu quintal, seu domínio, nossos países condenados à exploração desenfreada, à ignorância imposta e planejada, à desinformação estratégica, à miséria e ao abandono de parte da população, enquanto se privilegia as elites locais, sempre traidoras das suas nações, inimigas das multidões, entreguistas e subservientes à ditadura banqueiro-empresarial que manda no mundo através do aparato público dos países do chamado "primeiro mundo", herdeiros do colonialismo europeu, desse parasitismo planetário que agoniza entre guerras e catástrofes provocadas pelos poderes vigentes. O que acontece no Brasil é parte da estratégia de subjugação do povos, ameaçada pelos movimentos sociais, pela união dos países dominados, pelas propostas de integração solidária do povos. A herança colonialista ensina: é preciso dividir, promover conflitos e ódios, pra dominar.

Todo esse movimento, barulhento, odiento, mentiroso, superficial e sem propósito lúcido tem origem no ódio de classe, no terror que os exploradores têm de que os explorados se esclareçam, se organizem, que resistam às explorações desumanas a que são submetidos no dia a dia, no seu cotidiano, há gerações e gerações. É a inconformação dos desumanos com a humanização do sistema, que mal se esboça e apenas nas intenções, nos paliativos iniciais que romperam campos de força de proteção cuja função era manter os pobres fora de locais estratégicos na sociedade, como a academia, os cargos públicos, os clubes fechados, aeroportos, etc.

Senão, o que faria essas pessoas abrirem mão dos seus clubes, piscinas, das suas bolhas de usufruto, de luxos e desperdícios, pra estarem nas ruas vociferando seu ódio contra um governo que, apesar de vendido aos poderes econômicos, atira migalhas aos pobres? Eles não sabem, mas intuem apavorados, o que podem fazer com essas migalhas aqueles que não têm nada além de dificuldades pra superar na vida. As migalhas nas periferias são sementes e se reproduzem como os peixes e os pães de que falam as escrituras cristãs, se propagam e contaminam em conscientização e esclarecimento. Este é o trabalho do momento, desenvolvimento interno, de sentimentos e consciência diante do mundo e da vida. O processo é inexorável, impossível de conter. E esses esforços de contenção são a tentativa de manter as coisas como sempre foram. Nada permanece como é, tudo está em permanente mutação e o máximo que conseguirão será causar muito mais sofrimento do que o que já seria necessário no caminho da coletividade humana. A rota da caminhada já está traçada. Entre idas e vindas, seguimos.

Os beneficiários da miséria, da pobreza e da ignorância se debatem em fúria, vendo diminuírem - apenas diminuírem - os abismos sociais entre eles e seus empregados-explorados. Em sua desumanidade costumeira, herança do escravismo, não se conformam em se ver como são. E não engolem a idéia de igualdade de direitos entre todos, incapazes que são de manterem seus sentimentos de superioridade, estando em pé de igualdade. Seus privilégios são um vício, um fragilizador da sua própria humanidade. Por isso são tão odientos e desumanos - o pânico gera o ódio.

Quanto aos ingênuos, os que se deixam levar, os bois de manada, nada de inesperado ou surpreendente numa sociedade que produz ignorância e alienação, que produz mentalidades consumistas e competitivas, que estimula o egoísmo, a vaidade e a superficialidade, em massa, permanentemente. Daí a essa dicotomia ridícula, anti-petralha ou governista, constrangedoramente superficial, teleguiada, vazia de significado, desmoralizante pra mentalidade dos que a assumem.

Não gostaria nem de comentar o assunto. Estou apenas atendendo a pedidos de pessoas a quem considero. O que vejo é uma extensão da estratégia de dominação mundial, semelhante em toda parte, adaptada às realidades locais e suas características sociais e culturais. A visão míope que se percebe é também parte da estratégia, pra que não se veja o quadro mundial, a geopolítica das corporações que dominam os Estados e a vergonhosa manipulação da mentalidade pelo exército de especialistas em psicologia do inconsciente, em publicidade e márquetim, em sociologia, em antropologia, em todas as ciências cooptadas pra manter a dominação da massa humana - em benefício do punhado de parasitas, vampiros que mantêm dinastias no topo do poder mundial, há muitas gerações.

Comportamentos, mentalidades, valores, relações sociais produzidos em laboratórios do pensamento e implantados pelas mídias são elementos a serem superados na formação de pensamentos próprios, independentes, a partir da própria prática e da visão de mundo que se forma vivendo e não ouvindo as mentiras atiradas pelos organismos viciados de comunicação - criados nesta intenção.

Nomear como políticos esses farsantes que se fazem passar por representantes do povo é uma demonstração de cegueira, de condução mental, de crença ingênua em instituições infiltradas e dominadas por interesses de poucos pra enganar muitos. Isso não é política. É farsa.

PS - É preciso sempre lembrar que o petróleo descoberto no pré-sal, abundante e de ótima qualidade, tem motivado a campanha midiática de desmoralização da Petrobrás, a serviço das gigantes do petróleo mundial. Que estão bem infiltradas no Estado, nos parlamentos, nos judiciários, nos executivos, em todo lugar onde a "democracia" pode ser comprada. E a quem serve o tumulto institucional, sempre na desestabilização de um governo que opõe uma mínima resistência à ambição avassaladora das mega-petroleiras mundiais.

Há corrupção em todas as obras públicas, é opinião geral, pública e notória. Só não se fala a respeito com coerência e ligação, pra não se perceber que todas as instituições são uma enorme falcatrua mentirosa e mantenedora de miséria, ignorância e abjeções sociais que de há muito já poderiam ter sido resolvidas, pelas condições de produção, tecnológicas, logísticas, acadêmicas, de todas as formas há condições de resolver todos esses problemas básicos em todo o planeta.

Pense-se a respeito, é uma necessidade.

                                                                                                                    Eduardo Marinho

sexta-feira, 11 de março de 2016

Viagem a Sampa, curta e densa.

Aqui o cansaço, baqueado com a garganta, pode baixar em São Mateus. Eu tava em casa.
Uma noite na estrada, via Dutra, poucas horas dormidas num posto de abastecimento. Na casa que nos recebeu, um bom banho. As atividades, no entanto, não terminaram antes das quatro da manhã, enquanto esperávamos pra descansar. Éramos três, dois dormiram na Kombi e todos dormimos precariamente, de novo por pouco tempo. Ali era muito mais casca que miolo, muito mais forma do que conteúdo. O interesse estava no ar, os olhares não correspondiam às expressões e, quando correspondiam, mostravam ingenuidade e superficialidade de consciência – em plena simulação de consciência cósmica, com tendências orientais e alguns traços da mística afrobrasileira. Roupas vaporosas, túnicas indianas, turbantes, incensos, velas, o cenário era bonito, embora de espiritualidade só tivesse o que tem em qualquer parte que haja vida. Os que deixam o hábito de comer carne, muitíssimas vezes, sentem superioridade sobre os carnívoros, “primitivos”, “atrasados”, sem perceber que este sentimento de superioridade é o demonstrativo da sua própria precariedade espiritual, sem perceber suas próprias necessidades evolutivas, se contentando com este sentimento mediocrizante de superioridade e se fechando em grupinhos “mais evoluídos”, segregando mais ou menos os que não fazem parte. E aí se estaciona, se fabrica futuros sentimentos de vazio, de ausência de sentido na vida, de angústias inevitáveis. Falta raiz, falta realidade, falta o pé no chão, o peso da ação prática, da visão reta, da simplicidade no olhar, no sentimento de igualdade, reconhecendo a diversidade. Namastê... gratidão... e a gente vê a distância nos olhos e no sentimento. Quando não é distância afetiva, é distância de consciência, distância de realidades, distâncias morais. Não há fraternidade verdadeira sem o sentimento de família, de igualdade e respeito, com todas as diferenças de forma, de atitude, de pensamentos e sentimentos. A humildade aproxima, aprende e ensina, sem superioridade, por prazer, por dever moral, por necessidade interna. E, sobretudo, sem interesse algum em retribuição, seja qual for. O prazer em fazer é a retribuição.

Primeiro papo, de manhã, no MASP, avenida Paulista.


Muita gente parou pra ver, pra assuntar, alguns pra comprar.
De manhã, fomos expor na avenida Paulista e ficamos até depois da meia-noite. Boas vendas, conversas melhores ainda, com o tempero de uma passeata de bicicletas cheia de nudismos. Tudo meiquinhofado pra um documentário que tá sendo feito. Celestina parada numa vaga liberada da tarde de sábado até segunda-feira, serviu de abrigo na madrugada. Acordamos, café e expor na Paulista, desta vez saímos cedo, pra São Mateus, zona leste, ao encontro de amigos grafiteiros. Aí, sim, nos sentimos em casa, recebidos como família. Aí sim, pude sentir o cansaço que estava represado, estourando num baque que me tirou a voz e a disposição. Por um momento, porque depois que desisti da palestra na Roosevelt, onde aliás choveu o suficiente pra não rolar o evento, dormi uma noite ótima e no dia seguinte palestrei pra visitantes do centro cultural do grafite em São Mateus. Sem microfone, intimista, com tradução pro inglês, simultânea. Um acontecimento raro, numa periferia.

Papo no ateliê, com o Val e a rapaziada.

A turma reunida no Ateliê de São Mateus.


Agradeço a recepção de Toddy e Val, de dona Malvina e seu Atílio. Tudo família, em sentimento e em humanidade. Solidariedade plena e valiosa.

Os papos no ateliê do grafite são sempre densos, profundos e enraizados na realidade da maioria, no confronto entre Estado e população periférica, entre a repressão, a exploração e o desrespeito cotidiano, social, econômico, político, instrucional, informacional. A autonomia é o primeiro passo a ser dado na direção da realização pessoal e coletiva. Autonomia do pensamento, na criação de valores e comportamentos, de desejos e objetivos de vida além da falsidade institucional.

"Agora vou dormir, amanhã tem trezentos quilômetros até Visconde de Mauá." Dito e feito.



observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.