domingo, 19 de fevereiro de 2017

O sistema tem suas raízes em cada um de nós


Uma sociedade verdadeiramente humana será uma sociedade onde não haverá miséria, ignorância e abandono - uma vergonha do passado, então inconcebível. Qualquer um que apresente qualquer argumento explicando a inviabilidade de uma sociedade assim, apenas me provoca um riso amargo. Não há produção suficiente de alimentos? Não existem conhecimentos, logística, condições de eliminar estas excrescências da face da terra? Ora, é claro que existem.
O que acontece é que a acumulação, a concentração de riquezas, propriedades e privilégios precisa roubar direitos, mantendo populações em condições de barbárie, precisa de ignorância, desinformação, miséria e abandono pra seguir explorando populações e saqueando riquezas, moendo gente, destruindo potenciais e vidas, sujando e envenenando, tanto o planeta quanto as almas, as mentalidades, os comportamentos. Devemos a isso o estado de degradação social em que vivemos.
Querer vencer na vida é sustentar isso. Competir é manter o modo de relacionamento social. Acreditar nas informações e "opiniões" dos veículos de comunicação é envenenar a mente e receber uma visão de mundo completamente distorcida. Querer o que é induzido pelo massacre publicitário em suas sutilezas sedutoras é o alimento do sistema social. Não ligar a violência e a criminalidade ao desequilíbrio social absurdo, à miséria, à pobreza e aos valores distorcidos pela publicidade e pela propaganda ideológica subliminar da mídia, acreditando que repressão e encarceramento são algum tipo de solução - ou mesmo contenção - pra situação de terror cotidiano, pros níveis de criminalidade, é ter a mente lavada, enxaguada, teleguiada, entorpecida e estupidificada. 
Pretender mudar um sistema que estimula a competição, o confronto e a disputa, confrontando, disputando e competindo - ainda mais dentro das instituições, infiltradas e dominadas pelos poderes econômicos - é de uma ingenuidade mais que inútil e incapaz. Acaba sendo a "prova" apontada pelos defensores deste sistema social criminoso de que a farsa política é realmente uma "democracia", alegando que não se poderia falar assim se não fosse uma democracia. Alegação mentirosa, obviamente. Pode-se falar como esses pretensos revolucionários falam porque eles não tem nenhum poder de mobilização popular, em seus condicionamentos de superioridade social, em seu doutrinarismo estéril, em sua arrogância e pretensão de liderar, organizar e conduzir as massas. Pensam que estão lutando por uma sociedade igualitária, mas estão é colaborando com essa estrutura desumana, ajudando a construir o cenário do teatro macabro. Se alcançassem humildade, perceberiam. Eu percebo que há muitos se tocando. O processo tem seu ritmo.
Em cada um de nós há raízes dos condicionamentos sociais produzidos em laboratórios de pensamento bem pagos, contratados por um punhado de parasitas sociais podres de ricos - que não participam do caos que provocam, cercados em suas fortalezas com muros eletrificados e exércitos bem armados de seguranças privadas. Estamos expostos a isso desde o útero materno e ingenuidade é pensar que nossa vontade é toda nossa, como nossa visão de mundo, opiniões, sentimentos, desejos,... esta percepção, a meu ver, é a primeira de todas. E o trabalho interno, o mais importante. A coletividade é formada por todos e cada um. Trabalhando em si mesmo, o trabalho se estende automaticamente ao coletivo, sem pretensões de ensinar, liderar ou conduzir. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Jacobina, Bahia, norte da Chapada Diamantina

Verificação e ajustes, de acordo com o comportamento do motor.
A estrada do Capão tem 20 km de terra, buracos e poeira, antes de chegar a Palmeiras. A verificação da foto foi feita nos Campos, entre o Capão e Palmeira. Coisa de ajuste na cebolinha, que mede a pressão do óleo. Na madrugada, perdemos a entrada pra Cafarnaum e aumentamos a viagem nuns 70 km, por Irecê. Pelo menos as estradas eram boas, ao contrário da volta. Era sexta de noite.

A viagem a Jacobina foi iniciativa de Gaby Barbosa, exceção infiltrada na área jurídica, esse emaranhado intricado pros mortais comuns, historicamente montado pra servir aos poucos e conter os muitos. Chegamos de manhã, no sábado, à tarde fomos até a mineração de ouro que domina o lugar, como a Vale domina o Rio Doce e com a Samarco domina vários municípios no alto do vale. Lembrei da devastação planetária que vi por lá, com total conivência de prefeituras, câmaras legislativas e governos, tanto estadual quanto federal. Ditadura mega-empresarial, liderada por banqueiros. Sinistro de dar calafrios.

Mentiras - o objetivo, a qualquer custo, são os altos lucros.
As histórias que ouvi são muitas. Duas vezes por mês sai um avião carregado de ouro. A cidade sofre uma operação gigante, todo o percurso do ouro é vedado à população. Os empregados da mineradora ficam trancados num galpão pra não verem nada, enquanto o ouro é retirado. Uma vez, carregado demais, o avião caiu e em instantes a área estava isolada pela segurança armada com um círculo de segurança feito pela polícia local - que tampouco teve acesso às proximidades. A sujeição do "poder público" é óbvia ao poder econômico privado, as mega-empresas têm prefeitos, legisladores, governadores em seu bolso. A hipocrisia prevalece em todas as comunicações, tanto da empresa quanto das "autoridades", quando se dirigem à população. Os subterrâneos são podres. Há notícias de cemitérios clandestinos, com corpos de funcionários mortos por doenças pulmonares, como salitrose - ou coisa parecida, areia que endurece o pulmão e impede a respiração. Ao se sentirem ameaçadas em seus poderes ou ganhos, as mineradoras se tornam monstruosas, a população local que o diga. Ainda na instalação da empresa, foram expulsos todos os moradores do vale seguinte à exploração do ouro. Depois, com a organização pra se defenderem,            
As marcas das expulsões permanecem na frente da represa de rejeitos.
começou o terrorismo institucional e empresarial contra os moradores que resistiam. Uma velha e conhecida história de crimes contra a humanidade cometidos por essas mega-empresas, com a conivência e a cumplicidade dos poderes falsamente públicos. O cenário lembra a promessa de devastação que começou em Mariana e atingiu todo o vale, até o mar em Regência, onde continua a empestear há mais de ano.

O aspecto sinistro emana nocividade.
Andamos por ali sentindo a freqüência no ar, peso de crime organizado de alta máfia, senhores de vidas e patrimônios, sorridentes bandidos que espalham migalhas angariando a simpatia dos ignorantes. Procedimentos padrão, há séculos, que estão sendo denunciados cada vez mais, na busca de esclarecimentos sobre os bastidores sociais e empresariais mancomunados contra os povos. O padrão é mundial, como o domínio sobre os Estados.

A informação, a instrução, a consciência das pessoas é o terror desses criminosos que têm as leis nas mãos pra barbarizarem como querem, em busca das riquezas que serviriam de sobra pra acabar com a miséria, a ignorância, o abandono, o sofrimento pela omissão do Estado no cumprimento da sua constituição. Todos os movimentos coletivos que se põem a esclarecer a população, conscientizando da destruição dos mananciais e da natureza já tão sacrificada, são alvo de discriminação, difamação e perseguição.

Ainda no sábado, fomos a um evento onde conhecemos o trabalho de Joan Sodré, um Raul Seixas jacobinense, com presença de palco, ótimo som, cantou músicas do próprio Raul e também dele mesmo. E, devo dizer, com a mesma qualidade do Raulzito em suas letras e músicas.

Levando os painéis de exposição
A exposição foi domingo, na praça do CEU, com exibição do documentário Observar e Absorver e palestra. Creio ter tido bastante proveito. E as vendas compensaram bem o deslocamento. Bons plantios em terra fértil.

Chegando...


Levando mais painéis.

No final do encontro, a foto da saída. Atrás, Celestina espera já carregada, pronta pra partir.

Claratendimento direto.

Mostrando e explicando o trabalho.
 O filme rolou dentro do auditório, a exposição e as falas foram fora. Falei e respondi perguntas até acabar o tempo e mandarem parar.
Levi na fita.


Teve gente de esquerda e de direita, anarquistas e não alinhados em nenhuma ideologia definida. Todos de boa vontade, pelo menos naquele momento, os olhos eram bons e emanavam bons sentimentos. O entendimento rola melhor quando é assim.
Com Gilson Pereira, dom Quixote da moralidade em Jacobina
 Saímos na segunda à tarde da casa de Beto e Gaby, depois de várias boas conversas e com o som de Joan Sodré no violão, ali na cozinha, tomando café com a gente. Gilson também apareceu por lá, na sua hora de almoço que foi esticada ao máximo. Estavam Levi e Bianca - várias fotos são deles. A despedida foi entre corações. Gente que tem como objetivo a harmonia e não a vitória, a solidariedade e não a competição. Exceções ás regras sociais da mediocridade, do egoísmo e da vaidade. Todos parecem saber que vencer na vida é, na verdade, perder a vida com superficialidades, com formas sem conteúdo, com angústias e frustrações.

Levi, Cândida, Bianca, Eduardo, Clara, Gaby e Beto, na despedida de Jacobina.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Mídia e Estado canalhas

Há quem se espante com a canalhice da mídia. Mas ela foi criada canalha, com a expansão de um jornalzinho na forma de rede nacional de televisão, com centenas de repetidoras pelo país, de tv e rádio, sem falar nas publicações escritas. Foi desenvolvida ilegalmente com a tecnologia e a grana da Time-Life estadunidense, a partir do golpe de 1964, pra servir aos interesses das corporações estadunidenses, subalternizando a mentalidade da população aos valores estadunidenses, levando à idolatria do império das corporações que nos assola desde a segunda guerra, onde foi subalternizado o exército brasileiro ao estadunidense, com a deformação ideológica da oficialidade na Escola das Américas, no Panamá mas estadunidense, incutida de um anti-comunismo obsessivo e ignorante - o pânico e o ódio dos exploradores de pessoas e recursos na construção de riquezas privadas.
Não são casos episódicos, é a natureza da mídia, desde sua criação. O controle das comunicações é estratégico na dominação do país, no saque permanente com a cumplicidade das elites locais, sempre traidoras do seu próprio povo e nação, que desprezam, enquanto bajulam e admiram os saqueadores, exploradores e opressores estrangeiros, punhado de parasitas sociais que infernizam o mundo com seus mega-poderes.
"O comunismo vai acabar com o mundo!", gritam os que estão acabando com o mundo. Hoje, "comunista" é o insulto contra qualquer um que tenha preocupações humanitárias, que deseje menos injustiça social, que se preocupe com a população sabotada em seus direitos humanos, básicos, fundamentais e CONSTITUCIONAIS.
Um Estado seqüestrado pelo poder econômico de um punhado de podres de ricos, que não cumpre sua própria constituição, é uma organização criminosa simulando poder público, encenando uma farsa chamada de "democracia", mas que não passa de uma ditadura banqueiro-empresarial da qual a mídia é porta-voz e encarniçada defensora. Não é à toa a destruição do ensino público, a sabotagem da educação. É o impedimento da instrução, da formação de senso crítico e de consciência.
Perceber a mídia como ela é - e sempre foi - é um passo fundamental pra se começar a ver a realidade como ela é, ao contrário do que a mídia mostra. Isso aqui tá muito longe de ser uma democracia. Instituições ditas "democráticas" estão tomadas, infiltradas, dominadas pelos interesses parasitas mundiais, através e com a cumplicidade comprada das elites locais - e governantes, legisladores e juristas patrocinados.
Em vez de se lamentar, se revoltar, se decepcionar, desistir, se deprimir, é preciso se ligar, mudar de atitude, de desejos, de objetivos, de visão de mundo, de comportamento. Então, mudam as formas de relacionamento, mudam os sentimentos em viver, muda o mundo, no seu ritmo. E se ganha sentido.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Na cara de todo mundo...

Tô vendo o nível do descaramento, esperando a "inteligentzia" brasileira se ligar no que acontece e sair da superfície. As instituições não funcionam pelo povo, mas contra ele. Os governantes seguem as ordens dos mega interesses estrangeiros e desmantelam a sociedade, ponto a ponto, amarrando e amordaçando a população nas instituições falsamente "democráticas". O país está claramente em caos, o setor público sendo saqueado, direitos parcos e conseguidos com muito sacrifício de muitíssima gente sendo destruídos no focinho de todo mundo. Tô esperando os instruídos, os investidos em cargos, os honestos, bem intencionados que têm legitimado as "instituições democráticas" tentando inutilmente mudar suas atuações anti-democráticas, se manifestarem publicamente e fecharem com os trabalhadores da base, os periféricos, os informais, os encanadores, faxineiros, ajudantes de pedreiro, diaristas, gente que convive e supera cotidianamente dificuldades e obstáculos, desprezo e exploração. Aí começa um movimento avassalador, invertendo a vassalagem, a submissão e a opressão pra liberdade.
Quanto mais será preciso pros bem intencionados dons quixotes da institucionalidade - uns poucos entre pulhas - assumirem a realidade? Os mais fortes são mantidos na ignorância e na desinformação, no controle mental e no policial. Pessoas em condições degradantes, sem direitos humanos - e constitucionais - respeitados, com todo potencial a ser desenvolvido na formação de uma sociedade menos injusta e desarmônica. Populações inconscientes da sua própria força e capacidade de superação.
Multidões convencidas de uma inferioridade e uma impotência falsas, impedidas no desenvolvimento humano integral que lhes é de direito, na formação criminosa das legiões mais indispensáveis ao funcionamento de toda a sociedade - os trabalhadores braçais, a chamada "mão de obra de baixa qualificação".
Informar e instruir os que tiveram esses direitos negados é uma obrigação social, não caridade ou ajuda. É interesse de todos os que desejam uma sociedade menos injusta, sem miséria, ignorância e abandono - por conseqüência, com baixíssimos índice de violência e criminalidade. Investir em repressão e encarceramento seria uma estupidez, se o objetivo fosse a harmonia social. Seria necessário investir na população, além de acabar com o controle das comunicações por empresários e torná-las de fato públicas. Servir de instrução não enquadradora e de informações verdadeiras a todos é uma necessidade social pra harmonizar as relações sociais. Em verdade teria que ser um programa de Estado, no resgate das vítimas de crimes sociais, roubados por gerações em seus direitos humanos.
Mas a harmonia social está longe de ser o interesse de quem controla a sociedade, dos seus bastidores, escondidos dos holofotes da mídia. Ao contrário, a instrução, a informação, a união, a solidariedade e a consciência da grande maioria é seu terror. Eles cairiam sozinhos das costas dos povos, sem precisar ninguém derrubar, porque são fracos e dependem dos mais pobres todo o tempo, pra tudo. Fácil entender os porquês das estratégias desumanas, do controle midiático, da destruição da educação, da criminalização e perseguição da resistência, do controle da farsa política.
Autonomia é o desenvolvimento a se levar adiante. A pulverização impossibilita a concentração e o controle. Autonomia mental, pra começo de serviço, já é o alicerce necessário. A limpeza nos próprios condicionamentos, valores, visões de mundo, desejos, objetivos de vida, comportamentos e formas de relacionamento com as pessoas, com o mundo e com os acontecimentos. Aí está a chave de ignição da tomada de controle sobre a própria vida. Dentro de si em primeiro lugar, no coletivo por conseqüência.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Vale do Capão


No Capão eu tô produzindo originais, nada acabado ainda. Se não sair com tudo pronto, termino depois, porque várias coisas estarão começadas - um livrinho da editora Faisamão, "Reflexões", e um desenho a nankim da imagem que só fiz em pinturas, um "cabeça de fósforo".
Eu me deleito com a imagem no retrovisor.

A viagem não teve sobressaltos, a não ser no pedaço de terra, sem sobre mas com muitos saltos, buraqueira incontornável. A poeira, finíssima em alguns pontos, levanta como fumaça densa, mesmo na mais baixa velocidade. Parece talco cor de terra.

Roquenrou se comporta melhor na kombi que fora dela, quando revela sua criancice aos pulos, de orelhas em pé pra qualquer coisa que se mova - assusta pelo tamanho e pela cara de lobo, apesar de ser inofensivo. Qualquer cachorra velha mau humorada bora ele pra correr. Mas quando ela desiste diante da velocidade dele, ele faz a volta e vem provocar de novo. Ela ataca outra vez e ele foge e volta. Até que eu o faço respeitar os mais velhos, chamando pra perto de mim. Ele não insiste. No bar do Capão ele foi imprudente e uma dessas tascou-lhe um arranhão que só foi superficial porque ele se deu conta a tempo. Dessa vez, não precisei chamar, ele veio e ficou sentadinho perto, olhando pro grupo de cães comandado pela matriarca idosa.

Saindo pra passear o Roque - ele precisa - vimos o por do sol demorar no Morro Branco, marca registrada do Capão. No caminho, a pixação surpreendeu, com o anagrama do observar e absorver num muro, bem diferente do original. A essência deve ter sido entendida, mas a forma não tava bem assimilada. Embaixo, a explicação da viagem: bateu.
O por do sol demora no Morro Branco.
A reprodução do anagrama tá diferente, mas a explicação tá embaixo. Erva de qualidade.

Na praça da vila, nuvens coloridas na despedida do dia.

Isso que parece uma estrada é o leito seco do principal rio do Vale do Capão, o rio Preto baiano. Água tá escassa e chuvas são esperadas com expectativas, pelos moradores e visitantes. Basta uma chuvada pra lavar a poeira e acentuar os verdes. Mas não é suficiente pra encher os rios, represas e cachoeiras.
Roquenrou não se esconde pra se aliviar.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Rio Doce precisa de quelação urgente - ou Atenção Rio Doce: COENTRO!!

Eu não conhecia quelação, não sabia que existia, não lembro de já ter ouvido essa palavra. O mais perto que já ouvi foi quelóide, essas cicatrizes inchadas que se vê por aí. Hoje me caiu essa palavra e junto com ela a importância. Quelação é a ação de elementos quelantes que retiram metais pesados do corpo humano.

A região inteira do rio Doce, os mais de oitocentos quilômetros do maior vale do sudeste, foi transformada no maior depósito de metais pesados a céu aberto do mundo, emanando metais pra todo lado. O mar do Espírito Santo, da Bahia, do Rio de Janeiro, pouco a pouco mas sem parar, recebe pela foz do rio toneladas de resíduos da mineração, permanentemente, a cada segundo, desde novembro de 2015. O oceano está contaminado em vastas áreas e lentamente o fundo vai sendo recoberto com essa lama tóxica, que afunda a uma certa distância e segue cobrindo algas, pedras e areia. Os peixes se contaminam e são pescados - a indústria da pesca não pode parar - vão pras mesas e são comidos. Não é minha intenção apavorar ninguém com este cenário apocalíptico, mas é o que eu tô vendo. Do outro lado do mundo, Fukushima despeja radioatividade no oceano Pacífico há anos. Bom, mas isso nem vem ao caso agora.

Todo mundo que mora na região do rio Doce, e subindo pelo rio do Carmo e Gualaxo do Norte, está contaminado de metais pesados. Não tem escapatória, uns mais, outros menos, mas todos, gente, bicho, planta. Em Barra Longa, já na época do desastre, vimos a poeira subir por toda cidade, depois de cair vazando dos caminhões que a retiravam das tuas e praças à beira rio e passavam pelo centro e secar ao sol. Os mais pobres ribeirinhos não tem outro recurso que usar a água dos poços, pra não morrer seco - estes não contam com o Estado nem com ninguém, apesar dos esforços pontuais. Pesquise-se sobre as doenças que surgiram, que aumentaram, que estão lotando os precários postos de saúde pública, e se constatará a situação alarmante de que não se fala na mídia, no Estado, no mercado financeiro-mega-empresarial. Sem falar no êxodo em curso, quem pode está deixando a região, mudando pra outras plagas menos infestadas.

No quadro catastrófico, a quelação surge como uma necessidade. É preciso estabelecer formas de retirada de metais pesados dos corpos. E um vegetal cheio de elementos quelantes é o - pasmei quando li - coentro. O vale do rio Doce precisa se tornar uma gigantesca plantação de coentro, é preciso enfiar coentro goela abaixo até dos cachorros. A tragédia do rio Doce está no percurso, as conseqüências estouram em todo lado, a todo momento, o tempo todo, desde o estouro da barragem dos venenos mortais. A realidade em toda região se tornou tenebrosa. E as pessoas continuam vivendo, sem entender bem o que acontece, consciências entorpecidas ou maltratadas demais.

Peguei informações num saite cheio de publicidade, daí copiei e colei as receitas, creio que dá pra inventar mais um monte. Evito publicidade sempre que posso. E peguei de outros também, com informações a respeito do assunto. Simples e direto.

Esse informa sobre o que é quelação - http://zenholistico.blogspot.com.br/2012/05/desintoxicacao-e-quelacao.html

Instruções


  1. 1
    Consuma 1/4 de xícara de folhas e caules de coentro fresco picados diariamente por três semanas. Se consumir mais, isso não fará mal. Mastigue o coentro picado puro ou misture-o a sopas e saladas.
  2. 2
    Faça o molho pesto. Misture um dente de alho médio, meia xícara de qualquer castanha, 3/4 de xícara de coentro fresco, uma colher de sopa de suco de limão e cinco colheres de sopa de azeite de oliva. Tempere com sal marinho a gosto e sirva com seu prato de massa preferido.
  3. 3
    Tome algumas gotas de coentro para a quelação oral. A erva também está disponível na forma de extrato. Siga as instruções de seu médico ou da embalagem do produto.
  4. 4
    Realize a quelação intravenosa se quiser que um profissional oriente o processo. A quelação intravenosa de coentro envolve administrar uma mistura de ervas, incluindo o coentro como ingrediente principal, em sua corrente sanguínea.
Esse vídeo fala sobre as contaminações rotineira da vida por metais pesados, em pastas de dentes, placas de alumínio, tintas, vernizes e inúmeras outras formas de contaminação que não se percebe, no cotidiano. Aí se vê que todo mundo precisa, embora no rio Doce não há comparação, é nível de explodir os medidores, está acima da imaginação. https://www.youtube.com/watch?v=SeCtFzmuLXQ

O que é preciso é um prato de coentro de manhã, outro no almoço e outro no jantar. Terapia de massa pro vale do rio Doce e pro litoral da Bahia, do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Por enquanto. Não é nem pra melhorar a qualidade de vida, é mais pra diminuir a deterioração, o sofrimento, manter as capacidades de ação.

Outros alimentos que também retiram metais pesados do corpo são a castanha do pará, a couve, alho, cebola, couve-flor, alga clhorella. (http://espacodosol.com/blog/?p=6843)


sábado, 28 de janeiro de 2017

Primeiros passos... chegando na Bahia.

Essa entrevista improvisada - a da postagem anterior - marcou a saída dessa tão cavada viagem que, da partida em diante foi só melhorando, sempre muito aos poucos e na tensão de experiências anteriores em anteriores viagens. Celestina, a kombi, estava pronta pra partir. Ouvido atento aos ruídos do motor, passamos na casa do Cláudio pra pegar os painéis de exposição e saímos do Rio dez e meia da noite. Contava com o frio na serra pra subida em marcha lenta e altas rotações, como refrescante pro motor. Com um terço da carga plena, já era um peso pro motor amaciando. Mas foi tranquilo, esquentou um pouco, paramos no alto da serra, olhei, tava quente mas tudo certo, pequeno vazamento de óleo, coisa da cebolinha velha, que tá ligada na pressão do óleo.
Parada pra dormir, em Minas ainda. Amanhece o dia.

Seguimos pelos vales e montanhas a noite toda, às oito e meia demos uma parada, dormi duas horas e seguimos. Era a região do vale do Rio Doce, Valadares e região em volta. Febre amarela é assunto, tá todo mundo vacinado aqui, diz o frentista do posto. Em outro posto, os caras se orgulham da água, essa é de nascente própria, água limpa, pura, aqui no posto mesmo. A televisão fala do surto localizando o centro em Teófilo Otoni. Mentira, dispersão, deslocam o centro pra fora do vale, ao norte do verdadeiro foco. No rio Doce, morreram todos os sapos e peixes, os predadores dos mosquitos, que comem suas larvas e mosquitos vivos aos milhares. Não se ouve mais nenhum sapo, mas sim as nuvens de mosquitos. As autoridades fingem que não acontece nada de grave, as conseqüências mais visíveis são tratadas sem se mencionar as causas, como um favor do Estado. As conseqüências menos visíveis as sofrem os invisíveis sociais. Se a gente quer saber alguma coisa, tem que saber perguntar - tá todo mundo sem foco, mas quando se fala nos metais pesados que mataram o vale, todos concordam. E se muda de assunto. A televisão não fala disso, não deve ser assim tão importante. Não se sabe o que são crimes sociais cometidos por um Estado corrompido pelo poder econômico, não se sabe o que a televisão não diz. Entre os maiores crimes sofridos pela sociedade está o controle das comunicações e as mentiras compulsivas, repetidas, distorcendo, ocultando, difamando, apresentando falsidades científicas.

Entramos na Bahia, a paisagem vinha se modificando pouco a pouco, agora era a beleza grandiosa do sertão nordestino se apresentando aos poucos. Passamos Jequié, entramos na direção de Santo Antônio de Jesus, cruzamos uns quilômetros da rodovia litorânea, fomos pra ilha de Itaparica e chegamos em Salvador de barco. Eu tava sem máquina, mas o Adro registrou um momento dessa travessia que queimou todo mundo de sol.
Na embarcação, todos no convés, até o Roquenrou, que não aparece na foto.


No dia seguinte, fomos atrás da tal cebolinha, em São Cristóvão, bairro periférico entre Itapuã e o aeroporto, cheio de lojas de produtos automotivos, mecânicas e atividades ligadas - coincidência, no Rio também São Cristóvão tem uma área grande na mesma linha. Aliás, né São Cristóvão o padroeiro dos motoristas? Chegamos lá no momento exato em que um grupo de pessoas periféricas bloqueava uma das pistas, com madeiras, pneus e fogo. Parei a kombi do lado, atravessei a rua, achei a peça em duas lojas, comprei a mais barata e fui à manifestação. Um adolescente havia sido morto numa operação policial, estudante, trabalhador. Lágrimas, sofrimento, menino bom, amoroso, apegado à família. A mãe não chorava. Em seus olhos havia ódio. Outra menina gritava que o irmão foi preso baleado e não se dava notícia dele, essa chorava entre os gritos. O Estado contra o povo, as instituições desumanizadas, é a mesma coisa em toda parte. As periferias fornecem mão de obra e recebem exploração, sabotagem, violência e morte.

Primeiro uma pista, depois as duas foram ocupadas.


A ira justa, sociedade criminosa.










Partimos pra Feira de Santana, dois dias depois de chegar em Salvador - não fomos nem à praia. Num centro cultural, Pé de Alegria, Aline Cerqueira armou um encontro, um papo, uma exposição pras coisas que faço, e lá fomos nós. Chegamos cedo, arrumamos desenhos, livrinhos, fanzines, quadrinhos, depois vi Clara abrindo camisas - vieram poucas, nem lembrei delas. A conversa rolou solta, mais de duas horas, e as participações no final coroaram o encontro, até que deu o tempo e tivemos que parar, estava ficando tarde e os ônibus iriam acabar. Dali fomos pra Feira Seis (VI), bairro universitário perto da UEFS, onde fiz uma palestra no ano passado. E fomos os últimos a sair do boteco. Vinícius nos convidou pra dormir na casa de Igor - pode parecer estranho, mas foi isso mesmo - e saímos de lá no dia seguinte, pelo final da manhã. 
Entrevista antes...

...palestra depois, no Pé de Alegria.

Pegamos a estrada do feijão, vimos o sol se por antes de chegar na estrada de terra que leva ao Capão, a partir de Palmeiras. 
Roquenrou olha o fim de tarde se aproximando.
 Seguimos viagem, chegamos à noite no Vale. Fim de semana em exposição, vamos a Lençóis pra isso. E lá arrumamos a base pra começar os trabalhos novos que esperam pra serem feitos.
Parada na estrada do feijão, durante o por do sol.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Na UTI da Celestina, Adriano Barros pergunta. Na Abolição.

Essa entrevista foi feita no melhor estilo, o do acaso. Adriano me viu parado na esquina da rua dele, na oficina onde a kombi se aprontava pra estrada, passou no ônibus, desceu no ponto seguinte. Quando chegou eu já não estava. No dia seguinte, quando cheguei pra buscar a viatura da viagem, ele apareceu, celular em punho e perguntas escritas... que ele já tinha utilizado em outras entrevistas.








sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Saindo pro nordeste, afinal.

Kombi finalmente pronta. Ou aparentemente pronta, a viagem é que vai dizer. Marcada pro início de novembro, só agora vamos poder subir no mapa. Estamos carregando a Celestina, fechando o telhado da casa pras chuvas durante a ausência, dando os acabamentos nas coisas. Dias nublados são melhores pra viajar, economiza tudo.

A rota é BR-116, passando pela 101 a caminho da ilha de Itaparica, onde atravessaremos pra Salvador. Aliás, espero fazer a primeira exposição aí, na cidade da Bahia, em algum lugar. Se houver convite, melhor, palestra-se e se expõe - é preciso repor a grana gasta no deslocamento. De Salvador vamos pro Vale do Capão, onde tem sossego e inspiração pra fazer novos originais, coisa que no Rio não tenho tido tempo pra fazer.

Do Capão é possível sair pra palestras e exposições, num raio de duzentos quilômetros, mais ou menos. Vamos estar precisando vender.

Celestina em Ouro Preto. Não vamos passar por aí, mas a foto é bonita.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Eduardo Marinho - ao vivo (Palestra completa)

Palestra acontecida sexta-feira última, dia 16 de dezembro, no Espelho Mágico, em São José dos Campos, promovida por Haedyl e Denise. Longa gravação, feita por Claudio Louro (é sobrenome, não apelido - embora em español seja o contrário, es apellido, no sobrenombre). Perguntas ao final, enriquecendo as idéias. Agradeço o trabalho de preparação, de recepção e receptividade. No dia seguinte houve uma continuação na rua, deve ser publicado na seqüência, por aqui mesmo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Mais um transplante vital pra Celestina, a kombi





A primeira mochila não era nem cheia. Poucas coisas levava. De trabalho apenas uma tabuinha com pregos em oposição nas extremidades, onde amarrava linhas pra fazer umas pulseirinhas bem simplesinhas, um ensaio de trabalho, mais que um trabalho mesmo. Algumas camisas feitas no quarto, de forma improvisada, impressas com alguns desenhos, em casa. Agora não tinha mais quarto, nem casa, nem ferramentas, eu estava solto no mundo e não havia retorno. As garantias sociais haviam evaporado, nada me garantia facilidades ou amparo, em caso de necessidade. A antiga família já não sabia, nem queria saber, onde eu estava. Pulserinhas na mão, pedia mais do que trocava, trocava mais do que vendia. Não precisava de dinheiro mesmo, qualquer merrequinha já era muita coisa, mangueava o que comer, onde dormir, às vezes em casas abandonadas ou construções onde achava alguma entrada, sob marquises nas calçadas, em coretos nas praças, nos postos de abastecimento das estradas.
    Olhos atentos, ouvidos ligados, observava tudo, perguntava, experimentava, aprendia ávido tudo o que podia, ouvindo histórias, comparando vivências, sentindo as pessoas mais que nunca. Comportamentos de classes eram vistos de fora das classes – eu estava nas últimas classes, as de pedintes, mas me diferenciava por conhecer as situações de fartura que ali quase ninguém conhecia. E por saber das pobrezas internas entre os abastados, jamais me senti humilhado com o desprezo social, com o preconceito e a discriminação. Achei natural, necessário e agradável de experimentar, porque me fazia igual entre os debaixo, onde eu descobria as relações mais humanas que eu já tinha visto. Nunca me arrependi e nunca me senti humilhado ao ver desprezo e preconceito comigo. Estava imune, ganhando humildade.
    Mente analítica, alma sensível, andei o quanto pude, por onde pude, conhecendo, vivendo, aprendendo, por anos a fio pelo território, caminhando, viajando de carona, cidade em cidade, de periferia a periferia, indo aos centros pra satisfazer as necessidades e só. Com as memórias do tempo farto, das relações entre privilegiados, e com as vivências despossuídas e convivências entre os que não têm nada, fui montando pouco a pouco o quadro social.
    O trabalho foi se tornando mais importante, já queria escolher o que comer, já havia uma filha pequena, precisava pagar aluguel e contas. Fazia brincos, pulseiras e colares que foram melhorando em qualidade, fiz bolsas e sapatos de couro, fiz pão integral pra vender, nos períodos em que estava morando em algum lugar. Quando não estava, era o metal a base do trampo, em fio, em chapa, usando sementes, contas, espinhos, penas, dentes e unhas de animais mortos que encontrava nos caminhos, geralmente atropelados. Usava então mochila maior, carregava mais coisas, havia bolsas e volumes além da mochila.

                                                                             
    A uma certa altura dos acontecimentos, comecei a sentir vontade de colocar o que eu pensava no meu trabalho. Aprendi a gravar chapa de metal com corrosivo. Bacias de corrosão, maçarico, tesoura de cortar metal, vários alicates, pedra de amolar, soldas e apetrechos já somavam volumes. Quando saímos da Bahia, já com duas crianças, tive que fazer uma mochila, com lona de caminhão pra ser impermeável, enorme de tamanho pra caber a maior parte das coisas. Durante a viagem pro sudeste, pesei numa balança e estava pesando quarenta e cinco quilos. Além de todo ferramental, levava as coisas das crianças, as minhas, um fogareiro com um pequeno botijão, duas panelas e ainda comida.
    Paramos no Rio, dois meses de rua, depois Saquarema, Rio Seco, rua de novo, ocupação na Tirol, na Freguesia em Jacarepaguá, depois Petrópolis. Quando saímos de lá pra Montes Claros, tive que dividir as coisas, uma parte ficou esperando vir buscar - e se perdeu na enchente de 87 pra 88. E o que foi levado, básico pra sobrevivência, já não cabia nas mochilas e bolsas,  ferramentas iam num caixote enorme e pesado. De Montes Claros a Sete Lagoas, de Sete Lagoas a Prudente de Morais. Ali nos instalamos, nos dividimos, nos separamos em duas casas e vivemos quatro anos.
    Quando saí dali, em 92, sozinho com os três, não pude ir de carona. Fomos de ônibus até Visconde de Mauá, região serrana onde moramos em várias casas, por quatro anos. No final, um segundo casamento me trouxe um pequeno carro que passou a transportar as coisas e fez a mudança pro Rio.      O casamento acabou, o carro se foi e eu consegui, pouco a pouco, trazer meus filhos de volta dos dois anos que passaram com a mãe – dois deles, pois uma esteve comigo todo o tempo e foi quem me significou a saída do buraco escuro em que caí quando acabou. Eu precisava correr atrás, todo dia, por ela. E o tempo passou e toda ferida cicatriza.
    Segui dizendo o que pensava, minha visão de mundo e opiniões através do meu trabalho, então era o centro de atenção, falar com minhas artes o que me explodia no peito, a inconformação com esta estrutura social injusta, perversa com seus melhores e mais necessários membros. Já se iam mais de quinze anos nessa lida, minha vida e meu trabalho haviam se tornado a mesma coisa.
    Comprei uma bicicleta, saía com ela lotada de mercadorias, todas feitas à mão, com minha idéia e criações. Bagagem atrás e na frente, levava desenhos em papel, em camisas, em adesivos, ímãs, livrinhos... Cheguei a fazer viagens, a Parati, a Volta Redonda, a Visconde de Mauá. Os filhos cresceram, ganharam o mundo, fiquei só em casa. Foi quando tia Christina morreu. Ninguém esperava, mas ela tinha feito um plano de previdência pros dezenove sobrinhos que tinha e aí eu pude comprar a Kombi, num depósito em São Gonçalo, abandonada por uma pastora que não estava usando havia dez anos. Teve que trocar motor, instalar freios, trocar carburação, velas, distribuidor, bateria...
    Quando finalmente começou a funcionar sem problemas, me senti um privilegiado – não de privilégios sociais, mas de poder transportar minhas coisas e fazer o que sempre gostei, dirigir, ainda mais kombi. Senti aumentar minha responsabilidade com o privilégio, agora precisava encher com mercadorias reflexivas, minha proposta de trabalho e de vida. Aos cinqüenta e quatro anos, passei a viajar de kombi.
    A primeira viagem longa foi ao Rio Grande do Sul. Santiago, Santa Maria, Porto Alegre, Restinga, Sarandi, palestras e exposições. Fora pequenos problemas fáceis de resolver, troca de velas, aperto em porcas frouxas, tudo correu tranqüilo. Viagens próximas, Mauá, Belorizonte, se sucederam. Uma viagem ao Vale do Capão contou com mais de setecentos quilômetros de estradas de terra, perdeu-se um trinco da porta de trás, a barra estabilizadora da direção partiu, a homocinética esquerda quebrou. Eu tinha de reserva exatamente a homocinética que precisava, a barra foi soldada em Jequié, o trinco foi improvisado num serralheiro.
    Então começou a saga. Vazamento de óleo, que ninguém localizava a causa. Fui no João aqui do Viradouro, ele cobrou quatrocentos paus – o dinheiro minguava nos estertores finais – pra abrir, trocar o filtro de óleo, ajustar os flautins, regular os tuchos. Fomos pro sul, palestras em Floripa, Curitibanos, Guaporé, Cachoeirinha e Porto Alegre. Em Floripa, vendi como nunca, Clara nos desenhos enquanto eu palestrava. Fiquei pasmo com a quantidade de grana – nunca havia vendido tanto em tão pouco tempo – mas não sabia que ela ia ser toda necessária. Na subida da serra pra Curitibanos, por falta de óleo, o motor quebrou definitivamente. Passamos uma noite em Rancho Queimado e voltamos a Floripa com um caminhão guincho. Um amigo nos indicou um mecânico da confiança dele e deixamos a kombi pra ir cumprir os compromissos de ônibus. Na volta, ele apresentou um motor pra colocar, em preço vantajoso e em pouco tempo. Uma semana depois, saíamos de Floripa. O motor não estava em boas condições de verdade, bateu antes de chegar em Sampa. Incompetência ou má-fé? Não importa, isso não muda o resultado.
    Outro guincho, hospedagem na Ana Rosa, em Sampa, aparece um mecânico oferecendo um motor “em ótimas condições” e com um preço bem baixo “pra qualidade dele”. Mecânico de fama, com vídeos sobre os diversos problemas de motores, inspirava confiança, conhecimento e experiência. Senti que podia confiar no motor, o cara sabia tudo sobre motores a ar, pelo que parecia. Mil e quinhentos reais pagos ao dono, uma mixaria pra um motor tão bom, segundo o mecânico. Ele nem cobrou o serviço de retirada do velho e colocação do novo, só queria fazer um vídeo do processo. Achei ótimo, não teria mais dinheiro mesmo, estava de final de grana, salvando com as exposições na avenida Paulista. Retribuí como pude, deixei com ele e sua filha uma quantidade de desenhos, nem contei, juntei um de cada numa pacote só e entreguei de presente, pra sua surpresa.
    Senti que podia confiar, mas mais uma vez senti errado. Quatrocentos quilômetros rodados e parecia desandar, perdia potência, o óleo descendo o nível, eu completava, queimava óleo e saía fumaça. Cheguei em casa desse jeito, levei num mecânico aqui da rua, bom, mas caro, e ele  desconfiou do motor, pediu pra levar numa retífica, eu não acreditei, argumentei, disse que o motor tava garantido pelo melhor mecânico de que tinha notícia. Ele respondeu que o barulho era indicador de problemas nos cabeçotes, talvez anel de segmento nos pistões, coisa interna. Resisti e não levei. Mas a coisa piorava, o motor esquentava até parar, era preciso estacionar, abrir a tampa e esperar esfriar, saía fumaça do suspiro do óleo.
    Apareceu o Claudio Louro, me apresentou os mecânicos de família, pai, mãe, tia, o filho, todos tinham carros com motores a ar, fuscas e kombi. Os caras desmontaram o motor, apontaram a necessidade de retífica em vários pontos, os cabeçotes estavam condenados, um deles com uma trinca enorme. Nos encaixes dos eixos internos, arranhões e sulcos inviabilizavam o motor. A retífica recusou o serviço, apontando o motor como irrecuperável. Na opinião unânime dos mecânicos, o motor fora “engatilhado”. Eu não sabia o que era isso, me explicaram: “arrumado pra vender e quebrar logo depois”. Simples assim.
    Fiz saber a ambos, o dono do motor e o mecânico, do acontecido. O primeiro nem se manifestou em resposta. O mecânico reclamou por eu não reconhecer o seu trabalho e esforço. Bueno, cada um com seu caráter. Eu, no lugar do primeiro, devolveria a grana e me desculparia – claro que se eu soubesse do estado do motor, jamais venderia, muito menos o disfarçaria. No lugar do segundo, se não soubesse das condições do motor – o que acho improvável, embora possível –, iria reclamar com o dono, pois teria empenhado meu nome na garantia moral de que era um ótimo motor, e exigiria dele a devolução da grana ou cortaria relações pessoais com ele, assumindo a dívida, mesmo que não pudesse pagar. Assumiria porque minha consciência não me perdoaria se não assumisse. Mas não posso cobrar de outra pessoa que tenha a mesma consciência e o mesmo comportamento que eu teria.
    Cada um é cada um, com sua consciência, suas decisões e suas conseqüências. Trato do que tenho pela frente. Ao invés de voltar atrás pra cobrar, brigar, me aborrecer e estragar meus dias, prefiro correr atrás de um motor que funcione, trabalhar mais pra arrumar a grana, sem me aborrecer, fazendo meu serviço de causar reflexões, questionamentos, pensamentos e sentimentos por aí. Trato como uma fatalidade porque não gosto de trabalhar com culpas, mágoas e rancores. Muito menos manter contato com quem já deu sinais de omissão e fraqueza de caráter. São os mais difíceis e desagradáveis de tratar, ainda mais quando se trata do ponto mais sensível de pessoas assim, o bolso. Eu não tenho esse apego todo e prefiro perder o motor a entrar em conflitos e desequilíbrios tão detestáveis. Confiei, não foi? Agora pago o preço pela confiança em quem não é de confiança. Segue a lida.
    Nos primeiros movimentos neste sentido, as vendas não têm sido boas além do necessário pros gastos cotidianos e vejo a demora se desenhando, enquanto a kombi ocupa lugar numa oficina lá na Piedade, onde mora o Claudio. Não é pra ficar muito tempo, mas tá difícil.
    Várias pessoas sugeriram fazer um financiamento coletivo, mas não me senti no direito, afinal, a kombi é pra mim, ferramenta do meu trabalho que será feito, com ou sem viatura, apenas com mobilidade e capacidade de carga mais restritas. Achei que era uma função minha. E devo reconhecer que neste setor de ganhar grana sempre fui um fracasso, até porque nunca me preocupei em ganhar mais do que precisava pras despesas mínimas. Vejo pessoas que têm esse dom, mas não é o meu caso e não lamento por isso. Apenas nesse momento seria muito bom ter esse dom, mas não tenho. Aí me disseram que meu trabalho é coletivo e que havia gente disposta a colaborar na recuperação da Celestina. Resisti à idéia, mas com o passar dos dias essa resistência foi enfraquecendo. É verdade, a kombi me leva a mais gente, mais rápido e com muito mais coisas pra espalhar por aí, entre desenhos, livrinhos, ímãs e outras coisas em maior quantidade que em qualquer tempo da minha vida. Uma viagem pra palestra pode se desdobrar em palestras várias, nas periferias e associações, onde eu for chamado, locais que não teriam condição de bancar minha viagem. Então mudei minha posição.
    O esquema deve ser o mais informal possível. Há motores de fábrica, novos, o da kombi tá custando mais de onze mil reais, mais do que paguei na kombi... chega a ser engraçado. Há motores em condições de durabilidade – agora estou bem acessorado – que ficam entre quatro e sete mil. Se pessoas se juntarem pra arrecadar até mil reais, posso garantir uma visita com palestra e exposição, se estiverem num raio de quatrocentos quilômetros. Mais que isso, vou precisar de ajuda no combustível. Nunca cobrei uma palestra, mas estas seriam em retribuição por me ajudarem a recuperar a mobilidade que a viatura me dá. Os que me arrumarem quinhentos, podem indicar cinco desenhos pra eu enviar pelo correio (vendo a quarenta e cinqüenta reais, mas nesse caso seria uma ajuda e uma retribuição, não uma compra). Os que encomendarem desenhos, simplesmente, pelos seus próprios preços, também estarão contribuindo pra levar adiante essa vida de trampo que eu levo, completando os gastos com as despesas além kombi. E quem quiser contribuir de qualquer forma, com qualquer quantia, estarei atento às doações e aviso quando atingir o objetivo. Se sobrar alguma coisa, há inúmeros reparos a serem feitos, dobradiças a soldar, trincos a consertar, fechaduras por colocar, uma série de pequenas coisas por fazer. Estes reparos não estão na prioridade, por isso esperam as possibilidades. Tampouco estão no objetivo desta convocação de colaboração internética. Mas satisfações serão dadas na medida da minha consciência. Peço pra me enviarem os comprovantes de depósito pra eu fazer uma lista dos doadores, serão de alguma forma amigos da Celestina e, se rolar ocasião, agradecerei pessoalmente.
    Não sei se posso fazer melhor que isso, tô aceitando sugestões.

A conta pra depósito é uma poupança que abri pra trocar cheques, há tempos. Agora serve pra receber as encomendas que envio pelo correio. E vai servir pra receber essa ajuda pra arrumar a kombi e voltar a circular com ela pelo território, levando material reflexivo, questionador, pretensiosamente conscientizador.

Hoje, nove de dezembro, encerra-se a necessidade de contribuições pra kombi, o que rolou já deu pra resolver não só os problemas do motor, mas vários outros menores que estavam esperando pra serem resolvidos, conforme as possibilidades. Agradeço a todos. Sigo pondo no meu trampo o que vejo e o que penso, e levo aonde eu for. Celestina é ferramenta nisso, a última e já importante.

Ah, sim, gostaria que todos os participantes da "vaquinha" mandassem comprovantes de depósito pro arteutil.em@gmail.com, pra fazer a lista dos financiadores do motor.

Estrada gaúcha.
Serra de Visconde de Mauá
Trocando janelas, em Belo Horizonte.
Via Dutra, Sampa - Rio
Br-116, Bahia.





domingo, 4 de dezembro de 2016

Eduardo Marinho - sobre Deus ou espiritualidade.

O planeta Terra, em sua proporção astronômica, é uma poeira cósmica girando em torno de uma estrela anã (o sol), insignificante, na periferia de uma galáxia de cem bilhões de estrelas, quase todas maiores do que o sol, com dezenas, centenas de planetas, cada um com seus satélites, luas a perder a conta, em suas órbitas, estrelas dez, cem, mil vezes maiores que o nosso solzinho, estrela-anã. Imaginar (criar a imagem) destas dimensões exige uma certa concentração e algum senso de espaço. É preciso se projetar na imensidão do espaço universal e preceber a insignificante participação do nosso sistema diante do infinito existir perceptível. 

Se levar em conta que essa galáxia espiralada em que existimos (a via láctea) é também uma das mais simples e menores entre os duzentos bilhões (!) de galáxias contadas e catalogadas por inúmeras gerações de astrônomos, algumas com trilhões de estrelas, sóis com seus sistemas planetários, aí se começa a ter noção da nossa insignificância. Dessas dimensões universais, podemos perceber que somos um pequeno grupo de viventes numa poeira cósmica e, a partir daí, assumir o fato de semos uma família planetária em evolução permanente em meio a todo o movimento universal, em mutação eterna. Chega a ser irracional imaginar que só tem vida aqui na Terra e do jeito que conhecemos.

Essa visão toda, a meu ver, serve pra gente deixar de ser besta, primitivo e inseguro e parar de criar divindades que só nos separam, distanciam e criam confronto, e perceber que nossa necessidade maior está entre nós, nas formas de nos relacionarmos, nos valores truncados que nos enfiam goela abaixo, no desenvolvimento da sociedade humana de verdade. Não esse desenvolvimento mentiroso, que só aponta economia e tecnologia, mas o desenvolvimento moral que nos permitiria simplesmente atender a todas as necessidades de todos os seres do planeta, pois condições materiais pra isso já existem, o que não existe é o desenvolvimento moral e de consciência. Enquanto focalizamos deuses imaginários, geralmente machos – generosos e amorosos mas vingativos e cruéis ao mesmo tempo – concepções ridículas (me perdoem os religiosos) que tiveram sua função, a de acalmar o primitivismo humano com castigos e prêmios, dispersamos as nossas possibilidades de construir uma sociedade harmônica, sem tanta miséria e abandono, violência e criminalidade.

É preciso perceber que a espiritualidade se manifesta na conduta, no caráter, no temperamento, no dia a dia, no relacionamento com as pessoas e com os acontecimentos. Nos sentimentos que se produzem, tanto dentro de si como ao seu entorno, nas pessoas com quem se trata. No templo todo mundo é "santo", devoto, contrito e bajulador do seu deus. Mas a revelação se faz nas atitudes, tolerantes ou intolerantes, amorosas ou raivosas, humildes ou arrogantes, compreensivas ou julgadoras. A crença ou não crença importa menos. O que se acredita pode mudar de uma hora pra outra, conforme circunstâncias da vida, é o que tenho visto por aí. Mas o que se faz é determinante, fez tá feito, a conseqüência tali na frente. "Não importa o que tu pensa, "mo fio", importa é o que tu faz". Ouvi isso de uma entidade num terreiro de candomblé, em Salvador, numa festa de Cosme e Damião. Foi uma das coisas mais sábias que já ouvi.

Não preciso acreditar em nada, assumo que não sei e assim fico menos fechado na percepção da realidade. Além do mais, se minha espiritualidade está na matéria, é na matéria que devo exercer e desenvolver minha espiritualidade, não nas projeções pra além da minha capacidade de compreensão, que se demonstram historicamente como fonte de conflitos e disputas, totalmente de acordo com um modelo social que nos estimula conflitos e disputas, uma sociedade altamente competitiva que nos atira intencionalmente uns contra os outros - no interesse egoísta, ambicioso, ávido e perverso de um pequeno grupo de podres de ricos que domina os Estados, os mercados sobretudo os financeiros, as comunicações, o modelo de ensino e tudo o que podem, criando a mentalidade, os valores, os desejos e objetivos de vida. Essa estrutura social depende do comportamento geral, daí a mudança mais premente - e eficiente - ser a mudança interna, a que muda o comportamento.

Se aproxima o momento de dispensar a religiosidade e perceber que ninguém escapa da espiritualidade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Celestina em cirurgia outra vez - preparação pra estrada

Chegando de São Paulo, o motor já estava com barulho diferente. A potência havia caído muito, até na subida do vão central da ponte Rio-Niterói pedia a terceira, perdendo velocidade. O óleo voltava a vazar, pouco a pouco e aumentando, os tubos dos tuchos melavam, primeiro dois da esquerda, depois os quatro e dois da direita, por fim todos estavam sujando com óleo enquanto o nível, claro, diminuía na vareta. Levei no Wilson, aqui na rua, mecânico que sempre considerei bom, por vários motivos - e que eu evitava, por um único motivo, ele cobra caro - e ele, depois de examinar, disse pra levar numa retífica de um conhecido dele, onde tinham equipamentos pra retirar e examinar o motor, o que ali na oficina dele demoraria demais e ele teria que cobrar pela mão de obra. Aquilo me deixou com a pulga atrás da orelha, mas pensei que não era possível, o motor só tinha rodado na kombi uns seiscentos quilômetros. Ele falava dos cabeçotes e prováveis problemas internos, eu preferia acreditar que ele tava enganado. Mas a necessidade de acelerar por causa da falta de potência fazia o barulho das explosões nos cilindros escapar pro lado de fora - sintoma de vazamento nos cabeçotes, já que o sistema de escapamento estava bem ajustadinho.

Fui regularizar os doc no detrar, fazer a vistoria, e cada vez o motor exigia mais aceleração, perdia mais embalo na subida, esquentava a ponto de precisar parar pra esfriar e andar com a tampa aberta pra esquentar menos. Eu tava ficando já apreensivo - como viajar desse jeito?

Aí, por um desses mistérios da vida, apareceu o Claudião, como se diz, "do nada". Fotógrafo e metido com câmeras, vídeos e toda essa parafernália pra mim hermética, entrou na sintonia e criamos a intenção de gravar as coisas pra divulgar idéias e visões de mundo e da vida. Criado entre fuscas e motores a ar, tinha muito mais noção do que eu dessas mecânicas - eu tô com essa kombi há menos de dois anos, antes nunca tinha tratado de motor algum. Viu o problema e se meteu por inteiro, no bom sentido. E acabou nos levando ao mecânico de família com quem, como um médico de família, se relacionava há muitos anos. Ele também achava que era caso de retífica.

O Amauri e o Ricardo apenas confirmaram, claro, depois de abrir o coração da kombi. O Cláudio chama o motor de alma da Celestina, mas eu vejo ali o coração. A alma formamos nós, dentro dela, na intenção de levar e espalhar reflexões, pensamentos, questões, desmascarando as mentiras sociais em que estamos afundados nesta sociedade falcatrua, criadora de miséria, exclusão, ilusões, discórdias, conflitos e separações. Na humildade o Amauri explica o que encontrou por dentro do motor e o que precisa ser feito pra ficar "no jeito".

Aí se vê apenas o planejamento da cirurgia, com detalhes em cada problema encontrado, explicando o porquê do aquecimento e de todos os problemas que estavam se apresentando, a trinca no cabeçote, o arredondamento dos tuchos, as folgas nos eixos, a falta dos retentores...

Só ficou faltando a pedrada do orçamento. De qualquer forma, tenho que expor mais um ou dois fins de semana em Santa, pra completar o que suponho que será a grana do conserto geral. Já tem guardada, mas temo que não seja o suficiente, pelo que minha ignorância viu nesse vídeo.

Sinto que depois dessa, finalmente, Celestina vai estar com boa saúde pra encarar os milhares de quilômetros que tem pela frente, cumprindo sua função de levar reflexões por aí, a começar pela viagem mais amorosa, ao Vale do Capão.



Senti errado. Ainda falta. O que pareceu que foi, não era.

Hoje, 25 de novembro, o motor tá condenado ao lixo, não se aproveita nem pra retífica. Agora é correria pra arrumar outro, do zero outra vez. Muito trampo pra levantar de novo as condições de movimento da kombi. Mas não tem problema, trampo taí pra isso mesmo. Só adia todo o planejado pra levantar esse final de ano, projetor, caixa de som, bagageiro, lanternagem, arrumação da oficina de trabalho, preparação pra melhorar o esquema da produção dos trabalhos... tudo adiado pra quando der. Prioridade a Celestina, la kombi.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pequeno panorama



Na época do Fernando Henrique o congresso foi comprado com grana do Citygroup pra passar a reeleição - um desses remendos constitucionais pra "legalizar" as estratégias do real poder - através do banqueiro Daniel Dantas, de acordo com vários artigos fora da mídia porca, obviamente - e livros, como "A melhor democracia que o dinheiro pode comprar" (a partir da segunda edição, quando foi incluído o "Capítulo Brasileiro"), de Greg Palast e depois, "Privataria Tucana", de Amaury Ribeiro Júnior -, sob o compromisso de entregar empresas públicas lucrativas a preço de banana pra corporações internacionais. FHC só não privatizou empresas estatais desprezadas pelos parasitas podres de ricos e as que foram defendidas pelos trabalhadores organizados, como a Petrobrás e o Banco do Brasil, que passaram a ser sistematicamente sabotadas pelo próprio governo.

Lembro do final melancólico desse governo traíra, eu passava pela ponte Rio-Niterói e via o porto vazio, poucos contêineres, quase nenhum navio atracado, a crise era enorme e a mídia cumpria seu papel enganador, todo dia, criminosamente. Os movimentos sociais estavam na maior atividade, o MST nunca tinha conseguido tantos assentamentos e desapropriações no caminho da reforma agrária, necessidade nacional evitada a todo custo pela elite latifundiária. O punhado de vampiros precisava de um governo que acalmasse as movimentações coletivas e o torneiro mecânico vinha bem a calhar.

Lula já havia sido devidamente pasteurizado pelas três derrotas nas candidaturas à presidência, entendido que se não compusesse com os banqueiros nacionais e internacionais, se não se mostrasse "amigo" dos interesses mega-empresariais, não alcançaria seu sonho já transformado em projeto pessoal - afinal, começar a vida como vendedor de amendoim e chegar à presidência da república não é uma história comum. Aí surgiu o "Lulinha paz e amor", catequizado e adestrado ao serviço dos mega-sanguessugas da sociedade humana, pronto pra acalmar os movimentos sociais. E foi o que se viu. Num contraste brutal, nenhum assentamento, nenhuma desapropriação foi feita e os movimentos ficaram mansinhos, esperando o que o "colega" na presidência iria fazer.

A parasitagem comeu solta, enquanto os ocupantes do chamado "poder público" aproveitavam seus mínimos espaços de manobra pra estabelecer "programas sociais", atirando migalhas às multidões sabotadas em seus direitos constitucionais - jamais lhes seria permitido políticas de Estado que reparassem e compensassem tantos crimes sociais. Afinal, o "poder público" nunca foi público. Esses programas migalheiros eram tolerados com certa relutância, com ironias na mídia, na expectativa de que não dariam resultados significativos, pelas elites servidas por esse governo estratégico, como um efeito colateral desagradável.

Com o tempo, foi se percebendo o que quem não tem nada é capaz de fazer com migalhas. Foi se percebendo que muitos dos "egressos" da miséria e da ignorância, ao contrário do que se esperava, não "esqueciam" seu passado, nem abandonavam os demais periféricos. Pequenas e frágeis pontes, antes inexistentes, começaram a aparecer entre periferias e academias, quase despercebidas, "ignoradas" pela mídia dominante, mas observadas e monitoradas pelos poderes reais, acima e por trás da farsa política, com apreensão. É preciso manter a ignorância dos explorados. O nascimento e crescimento de instrução e informação periféricas é apavorante e intolerável ao punhado que depende da exploração pra manter seus luxos, patrimônios e poderes sobre a sociedade. O terror das elites é a instrução, a informação, a consciência e a união dos "de baixo". O aparato midiático, em conjunto com a máquina estatal - apodrecida pela corrupção generalizada que há séculos domina o teatro macabro das marionetes governamentais, sejam executivas, legislativas ou judiciárias - foi manobrado pra sujar a imagem desses "governos" diante da população ignorantizada e desinformada. Difamações, escândalos fabricados, denúncias estratégicas localizadas e cênicas, tudo foi feito, sem sucesso suficiente pra impedir a eleição e reeleição da guerrilheira.

Mas Dilma, sem o jogo de cintura, o traquejo e a vaselina do seu padrinho, não foi capaz de fazer frente às artimanhas do jogo pesado. A presença, ainda que mínima, de pobres nas universidades e nos aeroportos, as redes de informação periféricas - embrionárias - se desenvolvendo, se ligando, aterrorizavam e enfureciam a elite escravista, exploradora, arrogante e perversa. A mídia - sempre ela - abriu espaço e estimulou movimentos de rejeição às políticas migalheiras que diminuíam os índices de miséria, de fome e abandono de parte dos excluídos. Ao mesmo tempo se manobrava dos bastidores das instituições públicas, dos três poderes. As classes médias foram a massa de manobra perfeita pra angariar apoio na massa ignorante, pouco, mas suficiente pra, com os holofotes dos "grandes meios de comunicação", criar a imagem de rejeição que sustentaria as manobras criminosas - sobretudo no legislativo e no judiciário - direcionadas a uma troca de marionetes que se mostrava impossível nas urnas, mesmo com toda a armação controladora de eleições.

As corporações estrangeiras faziam seus movimentos, com o acesso livre que têm ao território e às instituições brasileiras. Só pra dar um "pequeno" exemplo, o presidente do Banco Central, base das políticas econômicas do país, é indicado por banqueiros mundiais e vem de altos cargos do sistema financeiro internacional, fonte da vampiragem mundial. Por isso as políticas econômicas estão sempre a serviço dos interesses estrangeiros, contra a população e contra o trabalho de harmonização social tão evidentemente necessário. O império das corporações transferiu a sua embaixadora especializada em golpes institucionais - passou o tempo dos golpes armados, militares e explícitos - ao Brasil, pra articular aqui o que ela articulou em Honduras -  onde se derrubou Manoel Zelaya - e no Paraguai - onde Lugo foi impitimado como a Dilma, por um congresso corrupto e raivoso contra políticas sociais. As elites traíras de dentro da política institucional estavam indóceis, rugindo e rosnando de ódio contra o atiramento de migalhas, ainda que mínimas, à população mais empobrecida. Corruptos históricos gritavam contra a corrupção "do governo", como se a corrupção não fizesse parte estrutural da sociedade como um todo, desde a monarquia.

Os contrastes eram enormes. Enquanto se berrava "crise!" em todo canto, eu nunca tinha visto tanto movimento no porto, verdadeiros prédios de contêineres lotavam os pátios, os atracadouros cheios e navios esperando estacionados pelo espaço da Baía de Guanabara. Na semana anterior à queda da Dilma, a alta do dólar era uma desgraça em todos os comentários econômicos da mídia. Na semana seguinte a mesma alta passou a ser ótima, um estímulo ao turismo. Descaramento pleno. A palavra "crise" desapareceu como num passe de mágica. E a corrupção profissa das marionetes traíras se instalou nos cargos "públicos" de comando estatal. O quadro governamental se tornou tenebroso, com todo o apoio e satisfação da mídia - a porta-voz dos interesses empresariais desumanos.

As chamadas esquerdas, incapazes de se unir em suas divergências teóricas, perdem sempre a oportunidade de esclarecer a população, em sua arrogância induzida de superioridades ilusórias, de cima dos seus pedestais de vidro e com seu linguajar construído como uma cerca de arame farpado que impede o acesso ao entendimento da maioria, sabotada em instrução escolar. Não se misturam com a população e temem as áreas de exclusão, ao mesmo tempo em que se iludem com a idéia de "conduzir", de "liderar", de "formar quadros" - lideranças controláveis - ao invés de servir as vítimas dos crimes sociais cotidianos há incontáveis gerações, com seus conhecimentos e informações. E aprendendo, por sua vez, a sabedoria dos que se desenvolvem na dificuldade, a capacidade de superação ímpar dos sabotados, dos explorados, dos excluídos, ganhando humildade e respeito no desenvolvimento da sua própria humanidade. E parar com essa história de "ajudar os necessitados", "ensinar aos ignorantes", "conduzir os explorados à sua libertação", servir as vítimas de crimes sociais dos quais não se foi vítima. Em vez de caridade soberba e humilhante, solidariedade plena e atuante. O sentimento de superioridade benevolente nasce dos próprios condicionamentos e afasta as pessoas, é preciso o sentimento de igualdade e serviço.

Não dá pra contar com ainstituições  acadêmicas, também infiltradas pelos poderes econômicos e cooptadas pela mentalidade empresarista, a não ser exceções pessoais que conseguem não se contaminar com os condicionamentos acadêmicos de superioridade social, que conseguem manter a humildade e espírito de serviço, que reconhecem nos "de baixo" a força maior da sociedade toda, a base de toda existência, de tudo o que funciona, privado ou público. Essas exceções precisam somar com os periféricos - há exceções também nas periferias, que a duras penas se instruem e se informam, com quem formar e trabalhar no sentido do esclarecimento, na contramão da falsa informação da mídia privada - aproveitando as enormes contradições entre o que é apresentado nas telas de tevê, nas rádios e nos jornais e a realidade inegável à nossa volta.

A força da base social precisa ser percebida por essa mesma base, mantida inconsciente, desinstruída, roubada em seus direitos constitucionais, fundamentais, humanos, por esta armação social primitiva, covarde, escravista, mantida pelos mega-parasitas. Esta maioria possui a maior capacidade de superação de todas as classes, é a parte mais forte da sociedade, tanto que lhe serve de alicerce, construindo, operando e financiando o Estado como um todo, com os impostos. Por isso mesmo é cuidadosamente impedida de se desenvolver humanamente, induzida a sentimentos de inferioridade e impotência que paralisam tanto a ação libertadora quanto a consciência de sua própria força. E é esta a função de quem teve acesso à instrução e informação que são direitos roubados de quem não as tem. Este é o serviço e a obrigação moral, levar estes direitos sem a indução acadêmica da superioridade, com o espírito de quem serve e não de quem ensina. Os que se põem nos pedestais de vidro perdem o contato com a realidade e esterilizam suas ações e intenções. Vaidades, disputas e arrogâncias são induções estratégicas, obstáculos à verdadeira conscientização - que é a maior necessidade no caminho de algum equilíbrio social. Se não se trabalhar internamente nos seus próprios condicionamentos, não tem trabalho coletivo que se enraíze e produza resultados sólidos.

Respeito é bom, é escasso, mas nóis gosta. Sem respeito não se consegue confiança. E sem confiança qualquer relacionamento é manco e precário. O trabalho interno, individual e íntimo, é fundamental na lida por mudanças sociais na direção de uma sociedade menos injusta. A humildade é uma necessidade neste sentido e é exatamente por isso que os egos são inflados entre os "instruídos". Os poucos que conseguem se livrar das amarras da falsa superioridade são valiosos. Mas ainda são muito poucos, embora contaminantes e em expansão, embora lenta.

Caminhamos.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.